As políticas de créditos contribuem para o crescimento econômico dentro de um determinado período. Contudo, se não há ponderação em sua adoção, os resultados podem ser adversos.

Em outras décadas, um casal trabalhava por longos anos com o objetivo da tão sonhada casa própria. Durante os primeiros anos, os esforços eram direcionados para a aquisição de um terreno. Depois compravam os materiais e contratavam um profissional para dar andamento ao projeto. Era comum residirem no imóvel ainda em fase construção. O propósito da economia era a conclusão das obras.

Todos os objetivos seguiam essa lógica: estabelecia-se a meta, economizava-se e comprava-se. Podia ser um automóvel, um eletrodoméstico ou qualquer outro bem de compra comparada. O comportamento do consumidor, no Brasil, sofreu grandes mudanças a partir de 1994, com a introdução do Plano Real. O grande trunfo do Plano foi o controle da inflação que historicamente assolou o País. Com a inflação controlada, o consumo foi favorecido e novos hábitos adquiridos, aumentando a confiança do brasileiro.

Eram divulgados dados sobre a população, que se alimentava melhor e comprava mais aparelhos eletrônicos e carros. Até as viagens ao exterior ganharam a atenção do grande público. No início do Plano, a política cambiária favorecia o turismo internacional e a compra de importados. Por outro lado, o habitual investimento em cadernetas de poupança perdeu força, em razão dos baixos índices de retorno. Ao invés de investir, as pessoas preferiam financiar todos os tipos de bens.

Não era mais preciso economizar por longos anos. Lojas ofertavam seus catálogos em suaves parcelas. Os consumidores tinham a vantagem de usufruir dos benefícios sem ter que esperar pela compra. O total a ser pago não era o mais importante; era visto como um preço justo pela possibilidade. Enfim, esse processo colaborou com o crescimento de inúmeras lojas de varejo e dos lucros das instituições financeiras. O mais importante não era a comercialização do produto, mas a disponibilização de crédito.

Depois de um período de recessão, no começo dos anos 2000, o mercado voltou a reagir a partir de 2004, em função do aquecimento da economia internacional. Devido às exportações, novos empregos na indústria foram criados, elevando o consumo interno e, consequentemente, a economia do País. As políticas creditícias adotadas levaram os gastos a níveis inéditos, agradando aos agentes econômicos.

As organizações viram seus volumes de vendas batendo recordes, a população tinha mais acesso aos diversos itens, as instituições financeiras lucravam devido às taxas de juros altas e o governo arrecadava trilhões por ano com os tributos. Essa situação durou até perto de 2010, quando o Brasil começou a sentir os efeitos da crise que vem deteriorando a economia nacional e preocupando a população.


O que são políticas creditícias?

Políticas creditícias são decisões tomadas pelo governo, e visam o controle do dinheiro no mercado, por meio dos créditos. Essas medidas são usadas para favorecer ou inibir o consumo, e, por meio delas, os ajustes necessários são feitos. Essas medidas envolvem mecanismos estipulados pelo governo. Pode ser pelo controle das taxas de juros (Taxa Selic) da economia ou pela injeção de dinheiro no mercado, através de empréstimos, financiamento ou outras ações realizadas pelas instituições públicas ou privadas. Quando o percentual da Taxa Selic é atraente, e há mais facilidades para a obtenção de créditos, aumenta-se o consumo.

Porém, quando almeja reduzir os gastos dos agentes econômicos, o COPOM (Comitê de Políticas Monetárias) tende a aumentar as taxas de juros e dificultar o acesso ao crédito. Esse assunto será tratado de forma mais abrangente quando o tema for “políticas monetárias”. Da mesma maneira, a iniciativa privada também tem grande importância nesse processo.

As empresas; instituições financeiras, varejo ou mesmo as indústrias; podem querer, ou não, oferecer seus produtos a prazo, e alavancar seus resultados. Se assim desejam, realizam pesquisas junto aos clientes para avaliar os riscos existentes na operação. É analisado o histórico dos compradores, o perfil de consumo e avaliadas as possibilidades de pagamento e inadimplência. Quando a economia é favorável, há predisposição à oferta de melhores condições de pagamento. Contudo, em situações adversas, as facilidades são restringidas. Essas diferenças podem ser comparadas no País nos últimos 12 anos.


As vantagens e as desvantagens das políticas creditícias.

As políticas creditícias, também chamadas de políticas de crédito, são importantes dentro do contexto econômico. Quando bem utilizadas, ajudam a atingir os resultados em curto prazo, pois resultados são percebidos de imediato. Ao serem anunciados os ajustes, o mercado reage imediatamente.

Entretanto, a oferta de créditos sem critérios pode acarretar problemas de médio e longo prazo. Quando as taxas de juros estão em baixa e mais dinheiro é disponibilizado para financiamento e empréstimos, a procura aumenta e os riscos de inadimplência ampliam-se. Se os fatores de produção forem insuficientes para atender a nova demanda, outro risco iminente é o da inflação.

Por isso, todos os ajustes realizados pelo governo devem ocorrer com bastante acuidade e bom senso. Os excessos cometidos podem resultar em um problema maior, podendo este levar anos para ser corrigido. As decisões tomadas devem partir das ponderações sobre as consequências da medida. Um período de sucesso da economia não justifica os transtornos provocados à Nação, derivados da irresponsabilidade daqueles que a governam.


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Informações sobre o texto

Texto publicado originalmente em Jornal Hora Exata em 04/02/2016.

Como citar este texto (NBR 6023:2018 ABNT)

THURMANN, Ernesto. Políticas creditícias e seus impactos na economia. Revista Jus Navigandi, ISSN 1518-4862, Teresina, ano 21, n. 4618, 22 fev. 2016. Disponível em: https://jus.com.br/artigos/46606. Acesso em: 25 nov. 2020.

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