Bem vindos a um a democracia de faz de conta em que 367 ladrões parlamentares podem roubar 54 milhões de votos da presidente eleita pelos cidadãos.

No momento em que escrevo estas palavras (domingo, 17/04/2016 - 21:13), o Impedimento está quase sendo aprovado pela Câmara dos Deputados (o placar está 243 votos a favor do golpe e apenas 80 contra o mesmo). A julgar pelos discursos grandiloquentes dos Deputados que votaram em favor da deposição de Dilma Rousseff, o Brasil entrará numa nova era de moralidade administrativa. O governo Michel Temer abrirá a Cornucópia e dela todos os brasileiros irão se beneficiar.

Haverá menos impostos, empregos para todos, mais direitos trabalhistas, a riqueza será melhor distribuída, a corrupção deixará de existir, os políticos serão todos inocentes como os querubins e a imprensa poderá voltar a dar boas notícias. Não haverá mais crise fiscal, o crescimento econômico será garantido pelos investimentos norte-americanos, somente virtuosos serão nomeados Ministros de Estado e, em hipótese alguma, haverá fisiologismo, nepotismo e negociatas no governo federal. A Petrobras será finalmente moralizada e entraremos numa nova era de bem-estar social, paz civil e de ética na política.

Kim Kataguiri e Reinaldo Azevedo serão os arautos do novo regime e patronos intelectuais do presidente eleito pelo Congresso. A profunda erudição nipônica e a incontestável eloquencia latina garantirão o renascimento do jornalismo brasileiro. O Ministério da Filosofia será entregue ao Luiz Felipe Ponde, machão que, de tanto pensar, já não consegue pegar mulher. E o Ministro da História será Marco Antono Villa, intelectual mundialmente conhecido por esquecer quase tudo que ocorreu no governo FHC e negar o que foi feito nos governos petistas. Lobão, o músico dos novos tempos, voltará a fazer shows para as massas. E o ator Alexandre Frota será indicado para o Oscar depois de interpretar com perfeição o Vice-Presidente Michel Temer.

Em razão de ter apoiado a presidenta deposta, o PT será extinto. Não haverá mais eleitores petistas. 1 milhão de militantes desaparecerão no ar como se fossem feitos de fumaça. Lula será preso e, com a ficha suja, nunca mais poderá ser candidato a presidente. A próxima eleição será tranquila, devendo o povo escolher entre Michel Temer, Aécio Neves, Geraldo Alckmin e José Serra, todos homens probos que empobreceram tentando enriquecer o Brasil nos tempos em que Lula promovia o bem-estar dos petistas.

Haverá universidade e riqueza para todos. Portanto, as Cotas e o Prouni serão extintas. Por falta de pobres, o Bolsa Família e o Minha Casa Minha Vida serão desnecessários. Nunca mais um brasileiro pobre precisará de ajuda governamental para estudar no exterior, razão pela qual o Ciência Sem Fronteiras será extinto. Com a distribuição de renda promovida pelo novo governo, o povo poderá pagar os melhores médicos provados. Por falta de clientes, o SUS e  o Mais Médicos cairão em desuso sendo desativados.

A moralidade finalmente retornará ao país. Nunca mais haverá corrupção, denúncias de corrupção ou escandalos jornalísticos referentes à corrupção. Como a imprensa passará a ter problemas em razão de não ter mais notícias ruins para vender, o governo criará o Proer da Mídia. Mas os impostos não serão aumentados, pois o governo poderá ajudar a imprensa com o que for economizado nos programas sociais desativados.

O Pré-Sal, ilusão inventada pelo PT, passará a ser explorado por norte-americanos. Afinal, eles são os únicos suficientemente generosos para transformar os nossos pesadelos em sonhos brilhantes. Os militares brasileiros voltarão a receber armamentos gratuitos dos EUA e o país poderá interromper todos os projetos malvados inventados pelos petistas para corromper os militares.

Nunca mais haverá racismo no Brasil, pois os negros voltarão a ser felizes por serem negros não tendo que estudar em universidades. Muitos deles aceitarão voltar a ser escravos, porque a felicidade da senzala é melhor do que o pesadelo da igualdade alimentado pelo maldito PT. Também não haverá mais criminalidade pois as polícias poderão matar os bandidos sem qualquer tipo de resistência governamental. Em breve os brasileiros voltarão a ter o sagrado direito de comprar e portar armas. O crescimento econômico das fábricas de armamentos garantirá a recuperação da economia. No Brasil novo o homossexualismo será tratado por pastores da igreja do Edurdo Cunha. FHC ganhará uma estátua na frente do Palácio da Alvorada e será finalmente nomeado padroeiro do Brasil, voltando a ser amado pelos brasileiros.

O nordeste voltará a ser sertão, para que os nordestinos possam uma vez mais conhecer a felicidade de serem migrantes em São Paulo. A locomotiva do país voltará a andar, pois foi injustamente paralisada pelo maldito PT que interrompeu o fluxo de novos operários para as fábricas paulistas. E todos serão felizes para sempre, pois no novo Brasil cada cidadão poderá voltar ter o mesmo lugar na sociedade que seus antepassados tiveram.

Bonito, não? Tão bonito que até parece irreal. É verdade, a única coisa real neste texto é a ironia. Estamos diante de uma verdadeira inversão de valores. 300 deputados procurados pela Justiça por crimes que vão desde homicídio até desvio de dinheiro público conseguiram crucificar uma presidenta honesta. O Estado de Direito não existe mais no Brasil. De fato, dois dos poderes republicanos (o Legislativo e o Executivo) foram totalmente controlados pelo banditismo político. E o resultado da votação de hoje somente poderá ser um: resistência à opressão de um governo pró-mercado e anti-operários, repressão imoderada contra a população e pilhas de cadáveres. Espero que a pilha de cadáveres dos golpistas seja maior que a das vítimas em potencial do novo regime.

Sem o respeito ao resultado da eleição, não haverá democracia e, sem esta, a paz social será impossível. Sem paz, não há desenvolvimento econômico. Sem ambos, a única coisa que restará é uma terra devastada, fadada a distribuir apenas três coisas: desemprego, fome e desespero. Quem tiver mais sofrerá menos. Nós certamente temos menos do que os 300 ladrões que se apossaram do poder para voltar a pilhar o Estado depois de terem garantido sua própria impunidade.



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