O vazamento da conversa de Romero Jucá transformou oficialmente em golpe o golpe que ocorreu e que a imprensa brasileira tentou encobrir.

O áudio do senador Romero Jucá é apenas uma gota no oceano de lama que inundou o Paládio do Planalto desde que o golpe de estado levou Michel Temer ao poderhttp://www1.folha.uol.com.br/poder/2016/05/1774018-em-dialogos-gravados-juca-fala-em-pacto-para-deter-avanco-da-lava-jato.shtml. Mas ele tem uma grande virtude. Ele escancarou os aspectos mais sombrios do governo Temer.

Cai por terra a alegação de Temer e dos seus protegidos de que se pretendia realizar um “governo de salvação nacional”. De fato, a menos que se identifique o país a quadrilha ladrões que dominou a Esplanada dos Ministérios ninguém pode dizer que a nação foi salva. De fato, o Brasil foi entregue àqueles que a roubaram e que desejam ficar impunes para roubar a nação ainda mais.

É curiosa a situação em que nos encontramos. A CF/88 prescreve expressamente o princípio da moralidade. Mas o Estado brasileiro passou a ser governado pela imoralidade. Uma presidenta honesta que facilitava as investigações até mesmo contra os membros do seu partido foi afastada por ter cometido a mesma infração que Anastásia (relator do Impedimento no Senado) praticou quando era governador de Minas Gerais. E aquele que assaltou o poder (refiro-me a Eduardo Cunha, de quem Michel Temer parece ser apenas um preposto) é acusado por inúmeros crimes financeiros governa o país através de sua máfia evangélica nos Ministérios.

Dilma Rousseff foi deposta em nome da moralidade, mas em seu primeiro ato Temer extinguiu a CGU. O órgão que fiscalizava a execução do orçamento e possibilitava a perseguição de corruptos não existe mais. Vários políticos suspeitos de corrupção foram nomeados Ministros pelo governo interino. Curiosamente, estas decisões governamentais não provocaram panelaços e passeatas dos moralistas nas principais cidades do país. A revista Veja, que atacava ferozmente o PT, agora exige a pacificação do país como se nós estivéssemos vivendo no melhor dos mundos. Os políticos corrompidos patrocinados pela Abril Cultural são menos corruptos que os “outros” corruptos?

A inversão de valores que se operou no Brasil é fenomenal. Mas ela só foi possível porque a imprensa participou do jogo, instigando o ódio contra o PT e escondendo ou amenizando as acusações que pesavam e pesam contra os inimigos dele. A partidarização da imprensa brasileira – fato constatado por jornalistas estrangeiros - foi e é o aspecto mais doentio do golpe de estado. Tanto que não chega a causar estranhamento a tentativa feita por Noblat, Reinaldo Azevedo e Catanhede de defender Romero Jucá e os parceiros de crimes que ele referiu na gravação. Neste momento estes três jornalistas se comportam exatamente como Eichmann, de quem Hannah Arendt disse:

“Quanto mais se ouvia Eichmann mais óbvio ficava que sua incapacidade de falar estava intimamente relacionada com sua incapacidade de pensar, ou seja, de pensar do ponto de vista de outra pessoa. Não era possível nenhuma comunicação com ele, não porque mentia, mas porque se cercava do mais confiável de todos os guarda-costas contra as palavras e a presença de outros e, portanto contra a realidade enquanto tal.” (Eichmann em Jerusalém, Hannah Arendt, Companhia das Letras, São Paulo, 2008, p. 62).

A realidade não interessa mais a Ricardo Noblat, Reinaldo Azevedo e Eliane Catanhede. Eles construíram esta realidade paralela em que um governo paralelo de criminosos foi empossado para se conduzir pelo princípio da imoralidade como se o princípio constitucional da moralidade tivesse sido revogado. O Brasil afundou na lama com a ajuda deles e agora eles mesmos estão afundando na lama em razão de defenderem o indefensável.

O golpe de estado nem mesmo é chamado de golpe pela imprensa brasileira. Contrariando toda a imprensa européia e norte-americana, os jornalistas brasileiros chamam o golpe de “devido processo legal”. Num mundo normal, os jornalistas brasileiros aplaudiriam seus colegas estrangeiros. Neste mundo paralelo que eles mesmos criaram não há qualquer possibilidade deles admirarem aqueles que são pautados pela realidade dos fatos neuroticamente rejeitados pelos arquitetos da nova ditadura.

A imprensa brasileira criminalizou Dilma Rousseff porque ela era inocente. E agora se esforça para defender os criminosos que foram levados ao poder por Eduardo Cunha através de seu preposto Michel Temer. O próprio Temer, coitado, está confinado no palácio prisioneiro de sua impopularidade. Como Hitler em seu Bunker sob a chancelaria do Reich, Temer movimenta tropas que não tem e exige a fidelidade daqueles que o entregariam ao inimigo para se salvar.

“Em 2016, com Michel Temer no poder, o PMDB encontrou seu inevitável fim e isto permitiu uma revolução na imprensa brasileira.” Esta será uma nota de rodapé nos livros de história daqui a 100 anos. Nenhum dos jornalistas que ajudaram a criar este universo paralelo e o alimentaram serão citados. Afinal, eles se dizem tão cultos e não foram capazes de entender a mensagem do episódio "Mirror, Mirror" da série Star Trek: onde o crime se torna o fundamento do poder o próprio poder sucumbe ao inexoravelmente ao comando da lógica.  



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