Analisam-se os efeitos do término do prazo de adequação da Lei 13.022/2014, que regulamentou as atribuições das guardas municipais no território nacional.

RESUMO:O presente trabalho tem como objetivo precípuo analisar as alterações trazidas aos Municípios Brasileiros após o término do prazo de adequação da Lei 13.022/2014, que regulamentou as atribuições das Guardas Municipais no território nacional. 

Palavras-chave: Guarda Municipal; Lei 13022; Adequação dos Municípios; Atribuições; Uso de arma de fogo; Cargos de carreira

RESUME:This paper aims to define a risk assessment tool for Brazilian municipalities after the expiration of the period of adaptation of Law 13022/2014, which regulated the duties of Municipal Guards in the national territory.

Key words: Municipal Guard; Law 13022; Adequacy of Municipalities; Attributions; Use of firearms; Career Positions


As Guardas Municipais estão na Constituição de 1988, com a missão de proteção de bens, serviços e instalações conforme disposição do artigo 144, parágrafo 8º, da Carta Magna, caracterizando, inicialmente, uma função de vigilância patrimonial, pois a atividade primária de segurança pública ficou a cargo dos Estados com as Polícias Militares e Civis na Carta Magna.

O vertiginoso aumento da violência e a sensação de insegurança que se avolumaram no nosso país, e uma tendência de municipalização das políticas públicas, como saúde, educação, trânsito e meio ambiente, trouxe a essas organizações uma maior participação em colaboração de atividades ligadas diretamente à segurança pública e, inclusive, apropriar-se de funções até então exercidas de forma exclusiva pela Policia Militar, para atender o anseio das populações dos munícipes de diversas localidades.

Em 11 de agosto de 2014, foi publicada a Lei Federal 13.022 de 2014, denominada de Estatuto Geral das Guardas Municipais, que regulamentou o artigo 144, §8º, da Constituição, versando sobre atribuições, carreira e organização das Guardas Municipais em território nacional.

O Estatuto Geral das Guardas concedeu prazo para adaptação dos municípios que têm Guardas Municipais conforme o seu artigo 22.

Art. 22 Aplica-se esta Lei a todas as guardas municipais existentes na data de sua publicação, a cujas disposições devem adaptar-se no prazo de 2 (dois) anos.   

  Primeiramente é necessário explicar que os municípios não têm a obrigação de ter Guardas Municipais, uma vez que tanto o artigo 144, §8º, da Constituição como o artigo 6º do Estatuto Geral dispõem sobre o caráter facultativo da criação dessas organizações.

Outro ponto de adequação obrigatória é o dos efetivos das Guardas Municipais não serem superiores ao previsto no artigo 7º do referido Estatuto, senão vejamos:

Art. 7o As guardas municipais não poderão ter efetivo superior a: 

I - 0,4% (quatro décimos por cento) da população, em Municípios com até 50.000 (cinquenta mil) habitantes;

II - 0,3% (três décimos por cento) da população, em Municípios com mais de 50.000 (cinquenta mil) e menos de 500.000 (quinhentos mil) habitantes, desde que o efetivo não seja inferior ao disposto no inciso I; 

III - 0,2% (dois décimos por cento) da população, em Municípios com mais de 500.000 (quinhentos mil) habitantes, desde que o efetivo não seja inferior ao disposto no inciso II. 

Parágrafo único.  Se houver redução da população referida em censo ou estimativa oficial da Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), é garantida a preservação do efetivo existente, o qual deverá ser ajustado à variação populacional, nos termos de lei municipal.    

Tal medida busca uma padronização da quantidade de Guardas nos diversos municípios do país, evitando a contratação indiscriminada e o desvio de função desses profissionais.

O erro na Lei foi não ter a limitação dos efetivos mínimos para cada município, ficando a critério e conveniência de cada localidade a fixação do quantitativo mínimo de Guardas a integrar cada Guarda Municipal.   

 No artigo 9º talvez tenhamos a maior conquista do novo Estatuto, uma vez que tal artigo dispõe que “a guarda municipal é formada por servidores públicos integrantes de carreira única e plano de cargos e salários, conforme disposto em lei municipal”.   

Tal medida acabou com a possibilidade de contratação temporária de Guardas Municipais, bem como obriga os municípios à implantação de planos de cargos e carreiras, significando um grande avanço para as instituições.

O Estatuto Geral também criou requisitos mínimos para o cargo de Guarda Municipal, conforme o artigo 10º:

Art. 10.  São requisitos básicos para investidura em cargo público na guarda municipal: 

I - nacionalidade brasileira; 

II - gozo dos direitos políticos; 

III - quitação com as obrigações militares e eleitorais; 

IV - nível médio completo de escolaridade; 

V - idade mínima de 18 (dezoito) anos;

VI - aptidão física, mental e psicológica; e 

VII - idoneidade moral comprovada por investigação social e certidões expedidas perante o Poder Judiciário estadual, federal e distrital. 

Parágrafo único.  Outros requisitos poderão ser estabelecidos em lei municipal. 

Esses requisitos mínimos não impedem que os municípios adicionem outros critérios adicionais em concursos para admissão de Guardas Municipais.

Outro avanço nos municípios que contenham Guarda Municipal se encontra no artigo 13 do Estatuto Geral, com a obrigatoriedade de órgãos de controle interno (corregedoria) para as que tenham o porte funcional de arma de fogo ou mais de 50 integrantes, obrigatoriamente, e controle externo, (ouvidoria) qualquer que seja o efetivo e seja a Guarda armada ou não.

Ainda foi aberta a possibilidade de criação de órgão colegiado para exercer o controle social das atividades de segurança do Município, analisar a alocação e aplicação dos recursos públicos e monitorar os objetivos e metas da política municipal de segurança e, posteriormente, a adequação e eventual necessidade de adaptação das medidas adotadas face aos resultados obtidos.

O Estatuto Geral das Guardas Municipais objetiva também a desvinculação das Guardas Municipais das Policias Militares em diversos momentos como no artigo 14, parágrafo único, que veda a possibilidade de as Guardas se sujeitarem a regulamentos de natureza militar ou no artigo 19, que fala que a “estrutura hierárquica da guarda municipal não pode utilizar denominação idêntica à das forças militares, quanto aos postos e graduações, títulos, uniformes, distintivos e condecorações”.

O Estatuto Geral também trouxe a obrigatoriedade para a Anatel de destinação de linha telefônica de número 153 e faixa exclusiva de frequência de rádio aos Municípios que possuam guarda municipal no artigo 17.

O referido Estatuto Geral traz, no entanto, dois temas polêmicos que provocam forte resistência nos municípios que dispõem de Guardas Municipais o armamento e preenchimento dos cargos de comissão.

Com relação à questão do armamento, o artigo 16 preconiza que “Aos guardas municipais é autorizado o porte de arma de fogo, conforme previsto em lei”.

Na realidade, não mudou a situação para obtenção do porte de arma de fogo pois as Guardas estão autorizadas à obtenção do porte desde que atendam aos requisitos previstos em Lei.   

Portanto, as Guardas devem se adequar ao previsto no Estatuto do Desarmamento Lei 10.826/03, incisos III e IV, em serviço nos Municípios entre 50 e 500 mil habitantes e em serviço e de folga nos Municípios com mais de 500 mil habitantes, realizando o convênio com a Policia Federal, com capacitação técnica e psicológica, assim como corregedorias próprias e autônomas, conforme a portaria 365 e o Decreto 5123, de 2004, da Presidência da República.

Em relação ao porte de arma para as Guardas Municipais, o Estatuto Geral não trouxe nenhum tipo de progresso ou relativização para flexibilizar a obtenção do porte de arma das Guardas, uma vez que o porte de arma desses profissionais continua sendo o mais burocrático dos portes institucionais das forças de segurança,

Tal afirmação se justifica, pois, se uma Guarda Municipal quiser a obtenção do porte funcional para seus integrantes, tem que seguir a matriz curricular nacional elaborada pelo Ministério da Justiça, a fiscalização da Policia Federal, com a necessidade de realização de exames psicológicos de 2 em 2 anos, além de capacitação obrigatória anual, conforme o Decreto 5123 de 2004, podendo ser suspenso em razão de restrição médica, decisão judicial ou justificativa da adoção da medida pelo respectivo dirigente de acordo com o parágrafo único do artigo 16 do Estatuto Geral das Guardas.           

Por fim, no que tange as prerrogativas das Guardas Municipais, temos o artigo 15 dispondo que “os cargos em comissão das guardas municipais deverão ser providos por membros efetivos do quadro de carreira do órgão ou entidade”.

Tal inovação significa uma mudança sem precedente nos municípios brasileiros, uma vez que grande parte dos dirigentes em postos de comando chefia e assessoramento das Guardas são de policiais militares, civis, federais, bombeiros e até mesmo outros profissionais e tais cargos terão que ser ocupados privativamente por Guardas Municipais.

Tal mudança valoriza a carreira, as instituições Guardas Municipais que terão nos seus quadros diretivos servidores da própria corporação e significa um incômodo político a cabos eleitorais de outras corporações que captavam tais cargos por apoio a candidatos fragilizando a gestão e engessando o crescimento das instituições Guardas Municipais nos mais de 900 municípios que tem tal organização.

No parágrafo 1º do já mencionado artigo 15 foi criada uma regra de transição, prevendo que “nos primeiros 4 (quatro) anos de funcionamento, a guarda municipal poderia ser dirigida por profissional estranho a seus quadros, preferencialmente com experiência ou formação na área de segurança ou defesa social”, objetivando a adaptação dos municípios e das próprias Guardas para ter dirigentes de carreira no comando das suas instituições.

Para os municípios, portanto, o Estatuto Geral das Guardas não objetiva a inviabilização das administrações municipais, nem tampouco minar o poder político local ou obrigar o ente municipal a despesas e compromissos que não possa cumprir.

Saliente-se que o descumprimento do Estatuto Geral das Guardas após o período de adequação enseja a provocação do Ministério Público Estadual, nos diversos municípios, do Brasil para forçar o Poder Executivo a cumprir a Lei, mesmo no período eleitoral, uma vez que a adequação, quase que em todos os seus pontos, não traz implicações financeiras e nem eleitorais para os prefeitos, não se restringindo a vedações pela lei eleitoral.                      

A efetivação da Lei visa apenas à padronização das Guardas Municipais e a implantação dos requisitos mínimos necessários para o funcionamento dessas instituições nos diversos Municípios do nosso Pais e a mudança de paradigma de instituições que eram consideradas como órgãos de vigilância, ou podiam ser usadas como organizações milicianas particulares de prefeitos e agora são cada vez mais participantes como força auxiliar na segurança pública e garantidores de direitos e garantias fundamentais ao permitir as populações acesso aos serviços e bens públicos.    


REFERENCIAS

BRASIL. Presidência da República. Consulta de Legislação. Disponível em < http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2011-2014/2014/Lei/L13022.htm> Acesso em 27 de Jul.2016.

BRASIL. Presidência da República. Consulta de Legislação. Disponível em < http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/Del3689.htm> Acesso em 27 de Jul.2016

BRASIL. Presidência da República. Consulta de Legislação. Disponível em < http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Constituicao.htm> Acesso em 27 de Jul.2016

BRASIL. Presidência da República. Consulta de Legislação. Disponível em < http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2003/L10.826.htm> Acesso em 25 de Jul.2016

BRASIL. Presidência da República . Consulta de Legislação. Disponível em < http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2004/decreto/d5123.htm> Acesso em 25 de Jul.2016


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Como citar este texto (NBR 6023:2002 ABNT)

SANTOS, Marcelo Alves Batista dos. Os municípios e a adequação ao Estatuto Geral das Guardas Municipais (Lei nº 13.022/2014). Revista Jus Navigandi, ISSN 1518-4862, Teresina, ano 22, n. 5019, 29 mar. 2017. Disponível em: <https://jus.com.br/artigos/54654>. Acesso em: 23 mar. 2019.

Comentários

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    JOSIEL CORREA TEIXEIRA

    ...de concorrer se vc tiver mais de 30 anos ou 35 como vejo em muitas cidades de SP.
    Deve se pensar em ganho de maturidade e experiência de vida, que pode ajudar a fortalecer uma instituição.
    Não vejo porque uma pessoa com até a idade, que não tenha adquirido a aposentadoria não possa concorrer ao cargo de GCM, visto que ele é de natureza civil, assim com a PC, PF. Os que empregam de atividade policial que citei exigem somente ter 18 anos que a maioridade, nas etapas do concurso a aptidão; física, emocional e social sera testada, além de exames médicos complementares, entrevistas e curso de formação, que atestam a capacidade do candidato de estar em serviço que requer sua dedicação, além disso tudo, se a pessoa passar com baixo aproveitamento no curso de formação, tem ainda um estagio probatório de 3 anos, por isso acho que limitar a idade máxima para GCMs como fazem algumas prefeituras, deixa de fora vários candidatos que poderiam agregar conhecimento as referidas GCMs.
    o nível de atuação operacional de um PC e de um PF e bem maior que o de um GCM, por isso se as instituições, não tem uma idade máxima para o ingresso não vejo porque as GCMs fixam em 30 anos a idade máxima.
    o STF fala sobre a natureza do serviço, só que a natureza do serviço e para todos, então o antigo ministro do exercito tinha que ser exonerado, da função e aposentado, assim que se descobriu a sua doença, pois ele não poderia combater e nem estar nas fileiras de combate em sua situação que perdurou nos governos passados, isto e a natureza do serviço se um oficial não conseguir fazer os testes dentro do limite de tempo ele tem que ser exonerado também pois a natureza do serviço pede que ele seja exemplo para os seus comandados.
    Mas o STF só viu a idade como um limitador de ingresso nestes concursos: um musico, um médico, um dentista, um veterinário ou um professor que vai trabalhar nas fileiras militares, tem que ser bem jovem para ficar sentado, tocando instrumentos, atendendo animais e pessoas, ou ensinando.
    eu acredito que pessoas com mais de 30 anos deviam poder participar destes concursos, pois a regra imposta de limitação de idade, não retrata o envelhecimento da população brasileira que hoje busca uma oportunidade de ingressar nas carreiras publicas.

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    JOSIEL CORREA TEIXEIRA

    Eu sempre estou lendo sobre as GCMs pelo "Brasil", os requisitos para a entrada em diversas GCMs, passa pelo teor de substimar, ou até descriminar as pessoas com idade superior a 30 anos de idade.

    Não vou falar que uma pessoa com deficiência de locomoção não possa atuar como guarda, mais já li em editais que uma pessoa com 31 anos que passou na prova física em com um índice melhor que os mais jovens e desclassificado por não ter uma condição de policial militar, que diz que uma apessoa com mais de 28 ou 29 anos não serve para ser militar, vide também as forças armadas, que só permitem pessoas com idade abaixo de 26 anos, outros até com menos de 20 anos.
    notasse que o estatuto das GCMs tenta ao máximo separar as GCMS das esferas militares, trazendo mais o foco em policia civil comunitárias, sendo os munícipe e os turistas que se utilizam da cidade o seu foco, onde deveria começar a implantar o ciclo de policia completo, onde as GCMs cuidariam da cidade em apoio as outras policias , a PM da ostensividade e do crime no estado, a PC da investigação e prisão dos criminosos e a justiça tomaria conta de manter os criminosos presos.
    Não vejo porque em um país que tem uma alta taxa de pessoas desempregadas segregar o ingresso desta ao serviço publico, sendo proibido

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    Adriano Assis

    Marcelo, excelente texto. Esclarecedor!!!
    Sou Guarda de um Município da Bahia, e ainda não se foi adequado a GCM à Lei 13.022.
    O que poderia ser feito para que seja cumprida a lei?

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