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O golpe dentro do golpe à democracia brasileira.

A democracia prestes a desmoronar?

Agenda 23/03/2016 às 17:41

É preciso alertar a todos os cidadãos que zelam pela Constituição que há um golpe dentro de outro golpe, que se chama fisiologismo partidário, o qual visa poderes do Estado em proveito próprio e não a dignidade humana da Nação.

O vilão herói: ex-deputado Roberto Jefferson (PTB)

Que existe, existe, um golpe dentro de outro golpe na democracia brasileira. O primeiro golpe foi denunciado pelo Mensalão. O escândalo do Mensalão aconteceu em 2005, na frágil democracia brasileira. O cabeça, nas denúncias dos investigados à época, era Lula. Apesar das denúncias, Lula não foi considerado o chefe da quadrilha. Mensalão evidenciou aos brasileiros o que já se imaginava, a promiscuidade entre setores privado e público. Marcos Valério foi um dos beneficiados pelo esquema ignóbil contra o estado Democrático de Direito. O PT até então era considerado o partido político, dentro muitos, sejam de direita ou esquerda, imaculado. E isso causou ojeriza aos partidos de direita. A direita esteve na condução do poder do Estado desde o século XIX. Os escândalos envolvendo os partidos de direta não agravam ao povo, principalmente os excluídos socialmente.

Esquerda no poder, no primeiro mandato de Lula, não agradou os partidos de direita, principalmente quando se avalia a historicidade brasileira aristocrática. O PT parecia o único partido a levar dignidade humana aos párias [nordestinos, negros, pessoas com necessidades especiais, indígenas, mestiços], dignidade usurpada pela direita. A popularidade do então Presidente da República [Lula] deu força aos párias de lutar pelos seus direitos humanos. Não tão somente os párias, mas os cidadãos brasileiros, como intelectuais, jornalistas, professores, juristas etc. Os quais queriam um Brasil humanizado. O Mensalão, porém, demonstrou que o partido PT não era uma divindade celestial no solo pátrio, mas um escolhido, não eleito, pela Divindade. Como escolhido, ainda era um ser humano dotado de imperfeições, como ganância, sadismo político. No final do processo do Mensalão, a República saiu fortalecida, a sociedade contra a corrupção exigiu punições aos culpados. Contudo, a direita traçava nas sombras planos de desestabilizar o PT. Com as eleições de 2014, Aécio Neves, até então um político ilibado em sua imagem, atacou o PT e a presidenta à reeleição presidencial, Sua Excelência Dilma Rousseff.

Os ataques ideológicos foram constantemente colocados aos eleitores. Denúncias de corrupções serviram como base de enfraquecimento ao “inimigo” candidato. Dilma e Aécio mantinham sempre as posturas de acusações recíprocas. No final, Dilma foi reeleita. O que parecia resolvido no campo político eleitoral começou a se introduzido, com mais veemência, no Congresso. As discórdias entre direita e esquerda, e suas bases aliadas, começaram a emperrar o Congresso. Medidas urgentes ao desenvolvimento do país ficaram em segundo plano, na maioria das vezes. Dilma foi acusada de dar “pedaladas” e de manipular as eleições de 2014.


O vilão herói: Delcídio Amaral

Na Operação Lava Jato, a promiscuidade entre público e privado parecia que ser mais sofisticado do que o Mensalão. A oposição [direita] ao PT se mostrava mais justiceira do que nunca, pois a corrupção tinha que ser combatida, as instituições democráticas estavam correndo perigo. Enquanto isso, defensores da direita editavam livros sobre a pérfida atuação do PT [Lula] à Nação; no mesmo diapasão da guerra ideológica do mais honesto, também houve publicações sobre os conluios da direita, de Fernando Henrique Cardoso. As redes sociais e blogues serviram de cenário de enfretamento. “Coxinhas” e “PTralhas” se digladiavam como gladiadores modernos. Para os “coxinhas”, tudo que fosse ligado ao desenvolvimento social [direitos sociais] era uma tentativa de golpe da esquerda em dominar o Brasil. Para os “PTralhas”, os “coxinhas” tinham claras intenções de retroagir no tempo, retirar os avanços sociais conquistados nas gestões do PT.

A Lava Jato se desenvolvia, as evidências de que tão somente o PT era o vilão da corrupção generalizada no Brasil proporcionou aos partidos de oposição amplo arsenal político para desmoralizar o PT, principalmente Lula e Dilma. No entanto, uma bomba fora detonada. Seu campo de ação atingiu não somente Lula, Dilma e o próprio PT, mas a maioria dos partidos brasileiros. A direita, pela primeira vez, desde o Mensalão, fora atingida. Delcídio Amaral, o vilão herói, estremeceu o solo brasileiro, de norte a sul, de leste a oeste. Sua delação premiada, e a posterior divulgação de sua delação à mídia, colocaram uma pedra angular no cenário sádico da corrupção entre público e privado, ninguém era abençoado e imaculado. PT, PSDB e demais partidos; Lula, Dilma, Fernando Henrique Cardoso, Aécio Neves etc., de santos, os paus eram ocos.

Ainda não há nada comprovado na Lava Jato, mas, mesmo assim, ideologias se digladiam, e a democracia, já frágil, desde a sua promulgação, em 1988, está na berlinda. O sangue de inocentes, na ditadura militar, parece que fora jorrado como espetáculo romano a entreter os espectadores no Coliseu brasileiro. Articulações de ambos os lados acontecem, de forma não mais velada, pois Delcídio, graças a liberdade de imprensa, lançou as bases para uma nova ideologia sociopolítica, ou os brasileiros defendem a democracia, sem bandeiras políticas e partidárias, e como a universalização dos direitos humanos, ou todos os esforços da Polícia Federal, do Ministério Público, do STF e das jornalistas, os quais lutam pela estabilidade e fortalecimento do Estado Democrático de Direito, não passarão de perda de tempo, dinheiro, saúde física e emocional.

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A corrupção é sistêmica, fato. Ela tem sua gênese no seio familiar. Nenhum político nasceu criminoso, mas se tornou criminoso pelo sistema perverso no Brasil, a máquina antropofágica. Essa máquina, secular, manteve cidadãos brasileiros no inferno; inferno este de radicais ultradiscriminadores da igualdade étnica, religiosa, sexual, morfológica, linguística. A máquina favoreceu grupos considerados “superiores”, aos párias, a máquina escravizou para manter o luxo dos “eleitos”. O Estado sempre foi construído para funcionar de forma unilateral, a favorecer os “eleitos”. As desigualdades sociais é fruto da pérfida Arquitetura da Discriminação, a máquina antropofágica edifica a Arquitetura. O que muitos brasileiros excluídos socialmente já sabiam, mas não tinham certeza, se consumou com as palavras do prefeito Eduardo Paes, do Rio de Janeiro. Pobre é uma miséria de pessoas miseráveis.

O golpe dentro de outro golpe é representa a máquina antropofágica. O complexo de inferioridade, teoria de Alfred Adler, em sociedade de extrema desigualdade social, alimenta a Arquitetura da Discriminação. A ganância é fruto das desigualdades sociais, é a camuflagem para os sentimentos de inferioridade interna. É a compensação aos sentimentos de baixa estima. Possuir a qualquer preço é a compensação, a tábua de salvação à agonia lacerante do menino homem ou menina mulher os quais se sentem desprezados, achincalhados. Contudo, a ganância tem outro lado tão obscuro quanto o complexo de inferioridade, o poder pelo poder mesmo em sociedade sem desigualdades sociais ou com pequenas desigualdades. São os sociopatas que se sentem superiores a todos os demais seres humanos. A ganância do sociopata em possuir não é uma compensação emocional, como se verifica nos seres humanos com o complexo de inferioridade, os quais se digladiam entre si para conquistarem posições socioeconômicas para se sentiram “normais”, mas o simples prazer de ver pessoas angustiadas, revoltadas por terem sido ingênuas. Há diferença no comportamento e no emocional do sociopata e do não sociopata.

Este tema é de sumária importância para as sociedades contemporâneas, porque as democracias estão sendo atacadas globalmente por terroristas de diversas categorias: os religiosos, os empresários, os machistas, os eugenistas. Enfim, uma gama de personalidade humana a não se conformarem com as diferenças. Alguns se agarram implacavelmente às retrógradas filosofias e teorias científicas pelo medo de que o mundo seja dominado pela devassidão, luxúria, corrupção etc., todavia, estes mesmo defensores dos valores supra-humanos querem controlar todos e tudo. Muito diferente de uma real democracia, mesmo diante das diversidades, a ditadura serve para abrigar tão somente alguns indivíduos que se elegem “escolhidos”, “soberanos”. Ora, por mais que se diga que em algum lugar deste pequeno orbe há baixa criminalidade, não há qualquer embasamento que justifique, na aparência tranquilidade, o machismo, o racismo. Se não há crimes nas ruas, o crime acontece institucionalizado pelo Estado, que subtrai a liberdade. Liberdade essa que é escolher como se quer viver, o que comer, com quem se relacionar, onde morar, sem qualquer perseguição e discriminação, a tolerância é a base social. E isso é que falta no Brasil.

O golpe dentro do golpe já fora delineado muito antes da promulgação da Carta Política de 1988. Grupos radicais, que perderam o poder do Estado, não se conformaram. As mudanças sociais representaram enorme “perigos” a esses grupos, uma vez que a liberdade de expressão existe, que a educação é acessível a todos os brasileiros, a Nação se democratiza, se humaniza e tem força soberana para combater, repudiar qualquer ação contra a democracia, o Estado Democrático de Direito. Esse é o grande temor dos radiais, verdadeiros terroristas em solo tupiniquim. Para eles, a igualdade de gênero, de sexualidade, de religião, de etnia e de morfologia é gravíssimo empecilho ao desenvolvimento de qualquer plano déspota.

O alerta também foi acionado pelas Nações Unidas de Direitos Humanos [ACNUDH], quando o porta-voz do Alto Comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Rupert Colville, em Genébra, expressou sua preocupação com os eventos no Brasil:

“Estamos preocupados com o debate cada vez mais acalorado e politizado que tomou o Brasil nos últimos dias e semanas.

Apelamos ao Governo, bem como aos políticos de outros partidos, que cooperem plenamente com as autoridades judiciais em suas investigações sobre alegações de corrupção de alto nível e que evitem quaisquer ações que poderiam ser interpretadas como um meio de obstruir a justiça.

Ao mesmo tempo, solicitamos às autoridades judiciais que ajam de maneira escrupulosa, dentro dos limites do direito nacional e internacional, e que evitem tomar posições político-partidárias.

Estamos preocupados que um círculo vicioso, que ameaça desacreditar tanto o Executivo quanto o Judiciário, possa estar se desenvolvendo, provocando dessa forma danos sérios e duradouros ao Estado e às conquistas democráticas feitas nos últimos 20 anos, durante os quais o Brasil tem sido governado de acordo com uma Constituição que oferece sólidas garantias de direitos humanos”. [1]


Nota

[1] — ACNUDH expressa preocupação com contexto político no Brasil. Disponível em: https://acnudh.org/pt-br/acnudh-expressa-preocupacao-com-contexto-politico-no-brasil/

Sobre o autor
Sérgio Henrique da Silva Pereira

Articulista/colunista nos sites: Academia Brasileira de Direito (ABDIR), Âmbito Jurídico, Conteúdo Jurídico, Editora JC, Governet Editora [Revista Governet – A Revista do Administrador Público], JusBrasil, JusNavigandi, JurisWay, Portal Educação, Revista do Portal Jurídico Investidura. Participação na Rádio Justiça. Podcast SHSPJORNAL

Informações sobre o texto

Este texto foi publicado diretamente pelos autores. Sua divulgação não depende de prévia aprovação pelo conselho editorial do site. Quando selecionados, os textos são divulgados na Revista Jus Navigandi

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