De Joaquins, o Brasil foi feito. Com eles evoluímos, alçamos direitos e defendemos liberdade.No país da inércia política, alguns Joaquins se destacaram por liderarem mudanças e fazerem o que era necessário para o momento. Por isso o Brasil precisa de mais "Joaquins".

                Acordei com um gosto amargo na boca. Gosto de decepção, de tristeza, de desesperança, enfim. Acordei pensando nos rumos do Brasil.

                Diante dos fatos que diariamente nos atolam de más noticias, tive a certeza de que o Brasil precisa de mais “Joaquins”. Precisa de gente que carregue ideal no peito, capaz de dar sua própria vida pela pátria. Gente como Joaquim Antonio da Silva Xavier, nosso Tiradentes. Um Joaquim mártir.

                Precisa de gente incorruptível, capaz de liderar e levar adiante suas ideias, como fez Joaquim Nabuco,levantando-se contra a escravidão e defendendo um estado e escola laicos. Um Joaquim instruído, ciente da realidade do país e que lutou e conseguiu, ao lado de Ruy Barbosa separação entre Estado e Religião, bem como a laicidade do ensino público. Até então nosso país tinha como religião oficial a católica, o que fazia dele um Estado Confessional. E nessa sanha, Joaquim Nabuco, num aparte a um colega seu, colocou todos os pontos possíveis os“is” fazer a declaração de que "A Igreja Católica foi grande no passado, quando era o cristianismo; quando nascia no meio de uma sociedade corrompida, quando tinha como esperança a conversão dos bárbaros, que se agitavam às portas do Império minado pelo egoísmo, corrompido pelo cesarismo, moralmente degradado pela escravidão. A Igreja Católica foi grande quando tinha que esconder-se nas catacumbas, quando era perseguida. Mas, desde que Constantino dividiu com ela o império do mundo, desde que de perseguida ela passou a sentar-se no trono e a vestir a púrpura dos césares, desde que, ao contrário das palavras do seu divino fundador, que disse: - “O meu reino não é deste mundo,” - ela não teve outra religião senão a política, outra ambição senão o governo, a Igreja tem sido a mais constante perseguidora do espírito de liberdade, a dominadora das consciências, até que se tornou inimiga irreconciliável da expansão científica e da liberdade intelectual do nosso século!" Grande Joaquim Nabuco! Um Joaquim sábio, realista e ativista.

                Mas também necessitamos de novas lideranças. Acho imprescindível ao nosso país, um Joaquim da estirpe do Távora, que se levantou contra os desmandos já cometidos àquela época pelo Governo Federal, capitaneado por Arthur Bernardes e acabou morto em São Paulo, quando, ao lado do general Isidoro Dias Lopes, liderava o ataque ao 5º Batalhão de Polícia e tomou tiros no peito. Morreu dias depois, com certeza feliz e realizado, por ter levado seus ideais até as últimas consequências. Morreu em paz, na certeza de que ideal não se abandona. Luta-se por ele. Um Joaquim idealista.

                Há ainda Joaquins competentes e que passam para a história como heróis. Esse o caso de Joaquim José Inácio, oficial da Marinha Brasileira que lutou na subjugação das rebeliões separatistas tais como a Confederação do Equador e Guerra Cisplatina. Depois esteve em ação na Sabinada e na Guerra dos Farrapos. Foi também figura fundamental à dominação da Revolta Praieira. Tornou-se Almirante na Guerra do Paraguai, quando foi agraciado como título de nobreza de Visconde de Inhaúma. Nessa guerra contraiu uma doença misteriosa da qual veio a falecer na Capital da República. Um Joaquim valente, corajoso e despojado de medos.

                Mas há outros Joaquins, como o Joaquim Murtinho, político liberal, que ao assumir o Ministério da Fazenda no Governo Campos Salles, restaurou as finanças republicanas desequilibradas devido ao encilhamento deixado por seu antecessor e pela herança monárquica. Para tanto, reduziu o meio circulante e articulou, em 1898, o funding loan. Na prática, o funding loan  era um esquema para dar folga e garantir, através de um novo empréstimo, o pagamento dos juros e do montante de empréstimos anteriores. Um homem de coragem, com visão diferenciada da economia brasileira, capaz de arriscar sua pele e pescoço em medidas impopulares, porém necessárias. Um Joaquim atuante e capaz de arriscar sua reputação.

                E porquê não falar também de Joaquim Caetano? Hábil em política e diplomacia, conduziu em Haia, em 1853, as negociações para delimitação das fronteiras com o Suriname. Ou seja, ajudou a definir o atual mapa do Brasil. Um Joaquim persistente, de visão ampla e excelente negociador.

                Joaquim Otávio Nebias, conhecido como Conselheiro Nébias, é outro Joaquim que merece ser relembrado. Nasceu na cidade de Santos mas foi em São Paulo que se formou em Direito em 1834. Logo depois foi nomeado juiz municipal em Santos e, no ano seguinte, eleito membro da Assembleia Provincial onde teve por companheiros os Andradas, Vergueiro, Paula Souza, Silveira da Mota e outros.

                Ainda nas legislaturas de 1838-1841, foi eleito na mesma Assembleia, onde por sua palavra conseguiu posição destacada entre os seus pares. Em 1841 foi vice Presidente da Assembleia e da Província. Membro daquela corporação política em quase todas as legislaturas até a 17ª, membro da Câmara Temporária nas 5ª, 8ª, 10ª, 11ª, e 12ª, juiz de direito da comarca de Itu e Sorocaba. Foi ainda presidente (governador) nomeado para o Rio Grande do Sul, em 1852, comendador da Ordem de Cristo, em 1854, eleito em lista tríplice para senador, em 1856, presidente da Assembleia Provincial várias vezes; vice-presidente e presidente da Câmara dos Deputados, ministro da Justiça, em 1870, juiz dos feitos da Fazenda da Corte, em 1871, e presidente (governador) de São Paulo de 30 de setembro de 1852 a 17 de dezembro do mesmo ano. Faleceu no Rio de Janeiro em 15 de julho de 1872. Um Joaquim competente, dedicado e de multiplas habilidades.

                Mas há também um outro Joaquim: o Marquês de Três Rios, Joaquim Egídio de Souza Aranha. Ele foi o primeiro e único barão, conde, visconde e marquês de Três Rios. Nascido em Campinas, foi um proprietário rural, cafeicultor e político brasileiro. Em 1876, passou a residir em São Paulo. Foi Provedor da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo. Fez também generosos donativos a instituições de caridade. Foi Presidente da Companhia Paulista, construtora da Estrada de Ferro Jundiaí a Campinas. Foi também um dos fundadores do Banco Comércio e Indústria de São Paulo. Está aí outro tipo de Joaquim do qual sentimos falta: aquele empresário, mas ao mesmo tempo preocupado com a situação social dos menos favorecidos e provedor de melhorias à eles. Um Joaquim empreendedor e filantropo.

                Entre tantos outros “Joaquins” que nossa história gravou, cito agora os de um perído mais recente. E o primeiro que não posso deixar de citar e enaltecer é Joaquim Benedito Barbosa Gomes, nosso eminente ministro do Supremo Tribunal Federal, que à frente do escândalo do mensalão, expôs ao mundo as entranhas da corrupção endêmica brasileira. A ele, todo meu respeito e admiração, principalmente por seus ideais e objetivos, perseguidos à exaustão. Menino pobre, filho de pedreiro, trabalhou como faxineiro até virar funcionário da gráfica do Senado, onde trabalhava das 18h às 4h da madrugada. Foi nessa época que passou no vestibular de Direito da UNB. Às vezes, devido ao excesso de trabalho, não podia ir para casa e dormia na oficina da gráfica. No pouco tempo que lhe sobrava, estudava, estudava e estudava. Cursou Direito numa época conturbada, em que a faculdade era dividida entre progressistas, que queriam derrubar o sistema e conservadores, que queriam mantê-lo. Joaquim Barbosa sempre se disse progressista, mas frisava que a derrubada da ditadura “devia ser feita dentro das regras legais”. Ainda estudando Direito, passou no concurso para oficial de chancelaria do Itamaraty. A partir daí, deslanchou. Foi procurador jurídico do Ministério da Saúde, fez mestrado, doutorado e passou no concurso de procurador do Ministério Público Federal. Aprendeu a falar francês, inglês e alemão. Um Joaquim honesto, determinado a conseguir realizar seus sonhos. Um homem de caráter, que desempenhou com brio e excelência o cargo de presidente do STF. Hoje, virou herói nacional da moralidade pública e motivo de satisfação para sua mãe, Benedita Gomes da Silva, que declarou estar muito orgulhosa, durante a posse do filho. O pai – Joaquim como o filho – não teve a oportunidade de ver o auge do ministro. Morreu dois anos antes de ver a estrela do filho resplandecer. Um Joaquim incorruptível, dedicado e obstinado, pronto para servir de exemplo para todos os fracos que acham que diante do primeiro entrave que a vida lhes apresenta, o melhor a fazer é desistir. Um Joaquim herói, de carne e osso.

                E por fim vamos falar de outro Joaquim. Este um Joaquim determinado, homem de poucos sorrisos e muitas ações: Joaquim Vieira Ferreira Levy , um engenheiro e economista, atual ministro da Fazenda do Brasil, que estudou na Fundação Getúlio Vargas, Universidade de Chicago e Universidade Federal do Rio de Janeiro.

                 Levy foi incumbido de pôr a casa em ordem, após os estragos deixados por Guido Mantega. Aliás, como diz a presidente, “quando a realidade muda, a gente muda”.  Joaquim então agiu rápido e baixou um pacote de ajuste fiscal, que minou as expectativas e faz de 2015 um ano perdido. Mas não encontrou sustentação sequer entre os parlamentares do PT, partido do governo. As medidas que mudam as regras da pensão de viúvas e do seguro-desemprego dificilmente passarão no Congresso. Ao defender a freada de arrumação na economia, Levy ataca sem piedade erros da política econômica do primeiro mandato de Dilma. Após afirmar que houve uma “escorregadinha” no controle das contas públicas, foi ainda mais longe e disse que a desoneração da folha de pagamento de empresas foi “um negócio muito grosseiro”. Segundo ele, “essa brincadeira nos custa R$ 25 bilhões por ano” e não protege, nem cria empregos.

                É um homem, que a meu ver, lembra Mario Henrique Simonsen no Governo Figueiredo, quando mantido no Ministério do Planejamento, foi designado para contornar a segunda crise do petróleo. Optou então por um tratamento de choque, com corte dos gastos públicos e superávit primário de 1% do PIB, ao preço de desaquecimento da indústria e do risco de recessão. Nos bastidores, Delfim atirava no colega e criticava as medidas de austeridade. Garantia que, apesar de tudo, era possível adotar uma política que garantisse o crescimento. As pressões aumentaram até que Simonsen pediu exoneração com apenas cinco meses no cargo. 

                A pressão que Joaquim Levy suporta hoje é intensa. Como Simonsen, Levy parece um peixe fora d’água no governo atual. Se ele representa a ultraconservadora Universidade de Chicago, os demais membros da equipe econômica aproximam-se, sem dúvida, do pensamento desenvolvimentista da Unicamp, ao qual a presidente Dilma também se filia.

                A ortodoxia de Levy nada tem a ver com a visão heterodoxa do ministro do Planejamento, Nelson Barbosa, do presidente do BNDES, Luciano Coutinho, e da presidente da Caixa Econômica, Miriam Belchior. E mais: não se afina com a formação keynesiana da economista Dilma Rousseff, avessa ao liberalismo de Milton Friedman, Prêmio Nobel e guru de Chicago. Está aí um Joaquim que sabe que a economia está muito doente e que o remédio deve ser dado, apesar de poder ser amargo e dolorido. Mas a seu tempo vai fazer efeito. Um Joaquim seguro, instruído em sua área e que sabe que caminho trilhar. Mas que vem sendo espinafrado pela presidente cada vez que diz uma verdade. Nós, brasileiros que perdemos o poder de compra, tivemos nossos ganhos reduzidos pela inflação e convivemos com a incerteza, devemos torcer para que esse Joaquim continue à frente de seu Ministério. Afinal, nas trevas econômicas que mergulhamos, ele nos parece ser a única luz no fim do túnel...É um Joaquim técnico, seguro e competente. E que não gosta de brincadeiras que custem 25 bilhões por ano. Um Joaquim perseguidor de bons resultados e cortador de gastos. Um Joaquim com muito tirocínio.

                Todos os Joaquins que citamos têm uma coisa em comum: o senso do dever. Coisa que há muito não se vê nesse país, onde o “Não soube”, “Não vi” e “Não ouvi nada” são as respostas padrão.

                Nesse cenário, com certeza, o Brasil precisa urgentemente de mais Joaquins!


Autor

  • Maria Luísa Duarte Simões

    Formada em jornalismo pela Universidade Metodista do Estado de São Paulo, onde também cursei Publicidade e Propaganda e Teologia. Mais tarde, depois de ganhar 3 Prêmios Esso, 1 Prêmio Telesp, 1 Prêmio Remington e 1 Prêmio Status de contos, resolvi me dedicar à carreira jurídica. Para tanto fiz a Faculdade de Direito de São Bernardo do Campo, onde me formei em 1985. Fiz pós graduação em Direito Penal na Faculdade do Largo São Francisco, sob a supervisão do prof. Dr. Miguel Reale Júnior. Hoje dedico-me a criticar as coisas erradas, elogiar as certas e ironizar aquelas que se travestem de corretas, mesmo sendo corruptas. Sou sua vigilante diária das traquinagens governamentais e da sociedade em geral. Sou comprometida com a verdade, o que muitas vezes vai me fazer dizer aquilo que você não que ouvir.

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