O denunciante enfrenta dilema entre o ideal de combater o mal e o que não deseja perder: vínculos afetivos, higidez física e mental, qualidade de vida, a própria vida.

Quando se precisa de um escape, não incidimos em erro ao fugir das prisões da vida, não colecionamos lágrimas afeitas à letargia da culpa, nem estamos passando testemunho de subserviência cultural ou sentimental. Alguns fogem em busca da felicidade, de um novo amor (ou a tentativa de); outros para escapar do perigo, da morte; e, às vezes, até para encontrar soluções aparentemente impossíveis. Todavia, conquanto seja um bálsamo a abraçar nosso ego, impossíveis são as condições a que nos submetemos quando, além do diálogo externo quedar silenciado, subsiste internamente a voz calada da autolimitação, da autoflagelação emocional, ocasionalmente, fugindo para a destruição ético-moral, para os vícios e prazeres, para a tara consumista etc., o que perfaz ficto ponto de refúgio que mina formas alternativas de reagir ao real problema — a anestesia da consciência a nos sabotar.

Tencionando desfoque da visão cartesiana da técnica, nossa abordagem estampará alguns meandros da distopia da motivação e de como se desenvolvem os caminhos que nos possibilitam, mesmo imersos nas profundezas dos problemas, reoxigenar o propósito das ações. Nesse intento, agruparemos aspectos filosóficos, psicológicos, jurídicos e práticos que se destinam a evitar a costumeira visão errônea de uma disciplina, visto que as soluções, notadamente na situação ora em tela, podem escapar ao cotejo fechado de isolada área do saber, já que limitada a respostas específicas e que não satisfaz a interpretação de desejos e da fugacidade com que, em determinados momentos, acabamos levando a vida.

Embora ciosos da lacuna havida no contexto do que escreveremos, é necessário pontuar que a postura de denunciantes em dado sistema corrupto, o qual encampa a omissão de agentes públicos em desfavor daqueles, pode ser de isolamento, de encontro consigo, com sua virtude. Nítida a diagnose de que, como uma salvaguarda aos anseios que ora destinamos ênfase, a procura por respostas aos corolários enfrentados pelos “informantes do bem” pode ter espeque no desejo mórbido de voltar à vida ou à dignidade dela, portanto. Aqui analisaremos o “caminho das pedras”, sem pejo, já que, como bem registrou o filósofo George Santayana: "Aqueles que não se lembram do passado estão condenados a repeti-lo".

Releva notar que, em atenção ao aplauso silente chamado “inconformismo”, o estopim do senso de justiça corrompido ainda merecerá muitas páginas de anotações, sob pena de enlouquecermos num apriorismo estereotipado de considerar que devemos ficar submissos ao padrão de “conivência em massa", o que também estaria corroendo nossa saúde à vista da passagem do tempo sob tais conjunturas. Além do mais, escrever almejando que pessoas bem-pensantes estejam infensas ao comodismo de fechar os olhos para o que fazem condenando o mesmo nos outros, sem aqui botar panos quentes, é remover o verniz do caos de integridade moral em que vive o brasileiro. Tamanho anacronismo recalcitrante, contudo, não deixa margem para titubear que não é o padrão que auguramos.

Despontando como premissa do que já manifestamos em outros esboços, e sem descer às minúcias do caso concreto, criaremos algumas questões-problema propositalmente, para fins didáticos, com as seguintes provocações:

  • O que a terapia da escrita e a interpretação tópico-problemática têm em comum?
  • Como escrever expressando nossos sentimentos sem fugir do tema?
  • No que Santos Dumont, Getúlio Vargas, Robin Williams, Marilyn Monroe, Alexandre Magno Abrão (o Chorão) etc. falharam?
  • Por que a corrupção desponta como regra geral num sistema econômico envolto pelo lucro e no qual somos máquinas desejantes?

Responderemos a essas perguntas de maneira que o prefácio de questões-problema seja a oportunidade para a busca por respostas, num viés deontológico e expressivo-terapêutico, cuja prática não substituiu os tratamentos convencionais — com o psicólogo, por exemplo.

Antes é preciso destacar que, diante de uma miríade de pretensões, ao longo da vida este autor envidou esforços à consecução de muitas artes — no bom sentido do termo —, para se evadir de situações estressantes. Figurando um fulgor natural, eram improvisadas criativamente centenas de artes digitais recheadas de propósito. O tempo passou, algumas circunstâncias se agravaram, e, no ápice de acontecimentos, foi necessário desestimular a crescente de pensamentos negativos, tensões, desânimo, temor e o mais. Então, após os primeiros reflexos ocasionados pelo dever de denunciar a corrupção, abrimos campo para uma nova forma de encarar as injustiças: fomos transformando uma dor intensa e progressiva em palavras, textos e reflexão.

Agasalhando a máxima de que “escrever é estar no extremo de si mesmo”, consoante escorço histórico de João Cabral de Melo Neto, aquilo que significara servilismo à coparticipação na morte de nossa dignidade[1], passou a aliviar a mente por meio de desabafos, como se fosse um hobby, uma válvula de escape. Seguindo nessas pegadas, mas com passos trilhados bem antes de ser lançado em Harvard o projeto Corona Diaries,[2] prescindir de continuar lançando mão da expressive writing é erronia grosseira que se quer ser de todo evitada, por evidente, de modo que, ao talante de ambientação, apresentamos um sopro de letras em primeira pessoa:

Isolado, após receber retaliações várias por corrupção, que não fui mais um a encobrir, beijei a lona por um lapso de tremenda ingenuidade ante a dimensão do cinismo do ser humano em conchavo de interesses e desejos vis. Acabei percebendo a desesperança, a falta de foco, a fobia, a ansiedade, a insônia, as dores físicas, a tristeza etc. nas camadas mais profundas de minha personalidade. Sentindo a determinação fraquejar, pairou o momento de remover os antolhos que a sociedade impõe e reativar a tomada de consciência, focando nas razões para lutar contra a corrupção. Ao me deparar com as janelas do medo nos porões da mente, fui ao fundo de mim para buscar coragem, dialogar internamente com as decorrências dos problemas externos, escrevê-los num papel e organizá-los em textos menos rabiscados de emoções, pois genéricos. Minha motivação e dignidade, que até então estavam pálidas e sem movimento, passaram a “respirar por aparelhos”. Aos poucos, os problemas mais íntimos e aterrorizantes rabiscados em um diário ao lado da cama começaram a ganhar contexto. As escassas palavras eram relidas, as reinterpretações induziram novas palavras, novos entendimentos, como ler um mesmo assunto em obras de diferentes autores. Então, os termos começaram a ganhar coesão; as frases, coerência; um ar de formalidade e um pouco de técnica em textos incompletos. Nesse instante me percebi animado a escrever mais sobre mim e sobre os desafios que me foram impostos, em busca de compreensão e de alternativas. Escrever acabou criando gatilhos de motivação para enfrentar dias intermináveis; revelou a voz muda que entendia a si própria; expressou a dor contida: a dor da injustiça. Eu estava invisível, mas as palavras escritas foram o passaporte, tal qual cartas em garrafas na água, para a tábua de salvação. Ei-la flutuando, por enquanto, na água suja da corrupção!

Há de assinalar que os rabiscos prosseguiram ávidos, ganharam as paredes, estabeleceram metas — entre elas, um esboço de artigo a cada dia 12 — e foram pouco a pouco criando o mapa, ainda cheio de lacunas, para se alforriar de problemas que se agigantam, mas que são dialogados cotidianamente. Os esboços publicados, como o presente, são seleções de alguns dos textos, dado que nem todo o diálogo interno sai dos rascunhos para a formalidade (a farta minoria é publicável). Quer-se dizer: a pluralidade dos escritos e as particularidades estão nas entrelinhas, tendo em vista que nelas nossa terapia, ainda que não ouça, dialoga a fim de clarear os mais remotos entendimentos.

Por certo tempo, esquecemos das palavras ditas por um grande amigo, Bauer Orcina Rodrigues, psicólogo e autor de excelentes obras, que nos instruiu: “Identifique os principais problemas, pegue um papel, uma caneta e comece a escrever.”. A lembrança fez sentido, foi oportuna, foi incontinenti sendo posta em prática, e escrever nos fez paulatinamente desabafar e refletir sobre o que ficou escrito, o que foi tornando viável o entendimento do plexo de problemas sentidos, a fim de que, de modo gradual e ainda sem a completude dos significados, houvesse a oportunidade para que as soluções fossem abalançadas.

Conforta-nos verificar de antemão, como pseudossábios que somos, que o consectário da visão fechada, ou a comodidade de aceitar a questão-problema como a única escolha, poderia nos levar ao aprisionamento emocional, conseguintemente, ao suicídio, tal qual aqueles que, entregues à cômoda aceitação do problema petrificado, passaram a defini-lo como a única saída, pois não refletiram, não se autoconheceram, não escreveram o mapa de caminhos alternativos e enclausuraram seus sentimentos numa casca. Ressignificaram-se aí os significados, levando o autodesenvolvimento à ruína, como se se fechar na redoma do negativismo de ignorar um sem-número de soluções por seus diferentes prismas fosse aliviar o entorpecimento psicológico.    

Com as questões postas, longe de qualquer solução, buscamos, enfim, entender um desses prismas: através da psicologia, encontramos a definição de catarse, que vem a ser um processo de cura emocional por meio da psicanálise, cuja influência se sustenta no comportamento humano, na memória do inconsciente. A catarse foi trabalhada por Sigmund Freud — o pai da psicanálise —, e materializa a recuperação do paciente, em suma, valendo-se da expressão/explicitação de experiências traumáticas/estruturas ocultas recalcadas.[3]

A definição de catarse nos levou à sua origem filosófica, também trabalhada por Aristóteles, fazendo-nos compreender que essa base de estudos induziria nosso intento de limpeza e purificação pessoal a redobradas razões de consequências. É que, com o alicerce da filosofia atiçando nosso interesse no melhor enfrentamento das dificuldades, surgiu a necessidade de perpassar limitações ainda enfrentadas nos desafios profissionais com a continuidade da escrita como pano de fundo.

Aí que a escrita, expressive writing therapy[4], logo subjugada à panaceia, já se apresentaria como prática em execução há considerável tempo, sendo encarada na sua clandestinidade ao longo desse caminho de descobertas. Todavia, nesse despertar de soluções, escrever sobre as decorrências da corrupção e revivê-las poderia ser uma tarefa bastante estressante, especialmente quando não se dispunha de planos ou pensamentos para desenvolver uma regulação emocional.

O assunto, reconheça-se, é espinhoso. Entrementes, a disposição de planos ou técnicas é rica em efeitos, de sorte que, nas recentes pesquisas sobre o tema, filiamo-nos à linha de pensamento de maior austeridade, sem a intenção de fomentar debates inócuos, mas já se registrando que, entre as técnicas de regulação emocional, encontra-se a seguir a descrição do renomado Robert L. Leahy, traduzida por Sandra Maria Mallmann da Rosa, do que vem a ser a escrita expressiva:

Pennebaker e colaboradores propuseram que expressar emoções ao escrever livremente recordações de eventos traumáticos ou perturbadores pode exercer um efeito paliativo na ansiedade, depressão e bem-estar físico [...]. Na livre expressão das emoções — ou seja, ventilação —, os pacientes recordam um evento perturbador e fazem por escrito uma descrição detalhada, prestando atenção especial às emoções que emergem e ao significado do evento. Embora o efeito imediato possa ser um aumento nos sentimentos negativos à medida que o evento negativo e as lembranças se tornam mais evidentes, geralmente há decréscimo na negatividade e redução no estresse em alguns dias ou semanas. Pesquisas sobre o uso da escrita expressiva demonstraram que ocorrem efeitos positivos nos resultados para uma gama de índices de saúde psicológica e física, desde efeitos pequenos a moderados [...].[5]

Malgrado as nuances e os matizes que particularizam os pensamentos, ao escrever sobre o problema, é como se demarcássemos o trajeto de um caminho, um verdadeiro mapa de soluções-problema, tal qual um objeto tridimensional observado na palma da mão[6]. Ou então, o que abona melhor sonoridade, é como se houvesse elos de comunicação interna ecoando a presença de um bramido desafiador da avidez que corrói a probidade do funcionalismo público (aqui resgatamos um pouco da concretude da atuação profissional). Daí que se define a necessidade de uma “quarta via” para entender em nós o que o mundo externo não consegue, pois se nega a compreender.

Vejamos com mais vagar.

Associando um conceito de clareza, vê-se a primeira via: o problema em si, qual seja a corrupção; a segunda via: os meios normais de solução, que são postos como instrumento ao dever de denunciar; já a terceira via: profissionais da retaguarda, que deveriam atuar minorando, na saúde e nos aspectos jurídicos, retaliações ao denunciante; finalmente, a quarta via: efeito colateral de denunciar, cujo desvencilho resta àquele que, obstaculizado de diversas maneiras, cumpre com seu dever, mas com ônus maior do que a pior pena que poderia receber o criminoso — uma deformação a revelar que o crime compensa, transferindo-se, às expensas de quem o denuncia, o cerne do problema.

Pode ocorrer, entretanto, nessa relação entre problema em si versus meios normais de solução versus profissionais da retaguarda versus efeito colateral de denunciar, uma situação agravadora desta última, de modo que, quando profissionais da retaguarda deveriam, por determinação ético-normativa, abrandar os problemas em favor denunciante, contra este acabam animando hostilidade: seja por meio de negativa de diálogo, isolamento, quebras de sigilo, seja até mesmo por unidade de interesses com grupos hierarquicamente superiores, nalguma “aliança real ou imaginária, conforme define Weiten (2002, p. 351 apud FIORELLI, 2019, n.p)[7].

Aliás, pensamos que o agente público, ao cumprir com seu dever de denunciar algum crime (ou de sua elevada suspeita), não escolhe simplesmente se submeter às consequências de seu mister. Ele, em tese, sequer tem opção, nem pode preterir seu dever, porquanto este já o é, por ser a única ação legalmente prevista. A menos, é claro, que o agente incida em conivência, prevaricação etc. Todavia, observe-se a saída, uma zona de conforto, que a maioria dos agentes públicos encontram: à mercê do costume, vantagens da conduta, benefício que se deseja proteger, medo de retaliações, troca de favores, entre outros, preferem justamente o caminho que menos gravames lhes trará. Está aí o adolo entregue ao criminoso, presenteado — em quádruplo — com o proveito de sua ação/omissão (1), impunidade (2), cumplicidade (3) e indulgência (4), quando, por outro lado, penalizadas estão a Administração Pública e a sociedade, por amargarem prejuízos às custas de eventual agente estatal que se evade de seu dever, consequentemente, dando azo ao plexo de dificuldades a serem suportadas por quem devidamente denuncia o caminho enodoado que a máquina estatal, por vezes, conduzida por interesses privados, toma.

Priscas atuações opressoras, contudo, não se revelam consentâneas com a postura de um legítimo e eficiente modo de combater a corrupção, tampouco se afinam com a voz oprimida de denunciantes que tentam dar viço às manifestações de seus sentimentos e do que observam no cotidiano do serviço público. Por oportuno, quão intensamente coloca Voltaire, a escrita é a “pintura da voz”, sendo certo que, ao destinar materialidade às nossas expressões, estamos empregando uma simbiose comunicativa, permitindo que, a despeito dos efeitos colaterais de denunciar, a escrita criada pelo homem agora também possa servir para revelar o quão embaraçada e penosa é a vida de um denunciante. Ao menos aqui escrevemos para guardar descobertas e conhecimento, vez que é um referencial para soluções de problemas vindouros — que, da fruição dessas linhas, poderão ser evitados.

Esmaecidas as circunstâncias que nos animaram a transportar para o papel dispensáveis acontecimentos na seara pública, no que falharam, então, os nomes famosos acima citados? Decerto, não exercitaram o autoconhecimento, não se permitiram o processo de olhar para (e dialogar com) suas dores internas, avistaram em seu casulo de negatividade somente a dor da estagnação, a aceitar, enfim, a inação dos demais. É dizer, deram as costas para a solução de seus problemas, o que os foi levando ao caminho da negação de si — ao suicídio —, situação que não afasta a responsabilidade do mundo externo, que, quando deveria evitar maiores gravames ou não os agravar, resta silente, num fazer por omissão, o que, ao cabo e da maneira que aqui emprestamos revolta, presta escora à corrupção.

Não se sotopõem nossos objetivos à vaidade, mas, se desconsiderarmos sentimentos ruins, conferiremos sentido efêmero às soluções, visto que estas, de tal modo, acabarão proteladas. Ademais, se ficarmos expostos ao estresse por ocasiões prolongadas, como um movimento pendular sobre outros âmbitos de nossa vida, ele provavelmente se configurará crônico, afetará nossas relações, fará com que as pessoas tirem proveito da situação, tornando a solução cada vez mais distante, a menos que tomemos a responsabilidade de encarar o inimigo, expressando-se de encontro ao que nos aflige, com destemor.

Neste porém, tende a existir um grande entrave a causar furor na atuação esperada de um agente público que entra em choque com a secular complacência da sociedade para a corrupção. Isso é simples perceber, porquanto, no que concerne às tessituras afetivas, seus desenlaces geralmente se percebem relacionados com o “efeito manada” de retaliações que migram de uma linha vertical de hierarquia para uma linha horizontal, dentro de um ambiente de trabalho “corporativista” e afeto à costumeira conivência: a uma, pelo destino de impunidade e omissão que ganha sustentação da maioria; a duas, pelo desconforto e medo que eventual conhecedor da situação apresenta, do que preferível é o silêncio, a perder uma vantagem ou sofrer as mesmas retaliações do denunciante. Todavia, as implicações de bater de frente com o inimigo (corrupção) descambam para fora do mundo laboral, desencadeando, naquele que denuncia, sentimentos de insegurança, medo, estresse, problemas diversos de saúde, o que pode ensejar o agravamento da introversão, seja num relacionamento profissional, conjugal ou, ademais disso, em qualquer outra inarredável consequência que, finalmente, venha reverberar o “jus esperneandi” no mundo jurídico.

Por essas e outras consequências destinadas a quem enfrenta a corrupção, buscaremos oportunizar outro esboço de artigo para esclarecer o porquê do quão difícil se torna a prática de denunciar na Administração Pública, tendo em vista que o preço que se paga, a fim de quebrar a cadeia corruptível, tem valor destrutivo inestimável sobre nossas vidas, muitas vezes envolvendo negativamente quem amamos em detrimento dos efeitos colaterais de denunciar. Haverá, por isso, uma subsequente amostragem de um espectro que traz um viés distinto da psicanálise, na obra Anti-Édipo - Capitalismo e esquizofrenia, de Gilles Deleuze e Félix Guattari, em que se acentua o protagonismo do desejo numa instigante interpretação do capitalismo.

Adentraremos no quadrante supra em momento futuro.

Na necessidade de compreensão sequencial, pelos contornos em tela, cabe alicerçar que derrotas sobre derrotas não nos deveriam deixar servis nem alheios à corrupção, como que se esquivar dos problemas postos. É necessário coragem, desenvolver um cientista de si mesmo. É preciso mudar a abordagem de antagônica para cooperativa, ainda que haja a corriqueira resistência por parte da cultura corruptível e acomodada das pessoas. Até porque, sentimentos não resolvidos, negativos, são um chamado à ação, e essa ação, quando formada por um propósito virtuoso — amainar qualquer tipo de injustiça —, pode ser um objeto de pesquisa de si para soluções outras, em que abordar nossos pensamentos e sentimentos pode dar base ao que se quer descobrir ou suplantar.

Seguramente, com base nalgum movimento cooperativo jungido ao autoconhecimento e ao autodesenvolvimento proporcionado pela escrita, haveria mitigado ostracismo de “informantes do bem”, já que eventualmente se tornam vítimas do que denunciam e acabam relegados ao isolamento do grupo, sendo o panorama basal da multiplicação de problemas sociais que desembocam em indivíduos. Não é por qualquer razão que a depressão e a Síndrome de Burnout são, assim, uma das sequelas proeminentes em casos que definem a faísca para a explosão dos milhares de suicídios que anualmente ocorrem no nosso país, tendo patologias relacionadas ao trabalho como fator específico. A valer, defendemos aqui o efeito prático da escrita como instrumento que possibilita o caminho de superação.

À guisa de exemplo, podemos citar peculiar caso de sucesso através da escrita, Joanne Rowling, que, tendo como êmulo a depressão, tornou-se mundialmente conhecida por escrever a narrativa mitológica de Harry Potter. E não pairam dúvidas de que hoje é uma das escritoras mais bem remuneradas do mundo, ultrapassando os 450 milhões de livros vendidos — obras lapidares, por sinal. É relevante, porém, divisar que tal façanha só ocorreu graças ao triunfo perpassando dias difíceis, o que apropriadamente lhe rendeu traços fortes na escrita. A propósito, J.K Rowling começou a escrever como válvula de escape ao passar por uma depressão, o que vem a emprestar ensejo aos argumentos da experiência haurida de imbróglios por nós constatados.

Vale referenciar outro caso: publicado nos idos de 1947 por Otto Frank , "O diário de Anne Frank" também logrou ser best-seller, pelo singelo desejo de se registrar as chocantes atrocidades e horrores ocorridos entre 1929 a 1945, dado que a jovem germânica, de ascendência judaica, fez constar em seus escritos o isolamento de sua família por ocasião da Segunda Guerra Mundial em uma emocionante e verídica história. O diário revela os sentimentos mais profundos de Anne, como a ansiedade, medo, depressão e desesperança, internamente; e a desumanidade e injustiças, externamente. Os escritos ganharam estatura de principal documento da época do Holocausto, com traduções para mais de setenta idiomas e, passados setenta e cinco anos da morte da jovem, desponta como um dos vinte livros mais lidos do mundo.[8]

Servindo igualmente como uma luva à situação aqui aventada, Andrew Solomon, renomado psicólogo, revelando o caminho que enfrentou na superação de sua depressão, compõe, com vasta técnica, o esqueleto de uma doença que assola vidas e sonhos. Numa fleuma necessária, o autor do best-seller sobre depressão, “O Demônio do Meio-Dia”, faz uma análise nua e crua da patologia que o afetou, na fase mais difícil de sua vida. A partir da publicação do livro, nos albores de 2000, ele sagrou-se referência na matéria e alerta que o isolamento social tem consequências graves e subnotificadas sobre a mente das pessoas.

Com o fito de dar concretude aos nossos argumentos, pelo ISMA-BR fora efetivada uma pesquisa abrangendo mil (1.000) pessoas de São Paulo e Porto Alegre e, na esteira do que se propõe a partir da terapia escrita, aprofundou-se em descobrir de que forma elas conseguiam enfrentar ocorrências complexas, evidenciando-se, igualmente, que procurou identificar quais atividades teriam aspecto positivo ou negativo em determinadas conjunturas. Alçando pertinência à constatação, 23% das pessoas entrevistadas, consoante a pesquisa, puderam afirmar que havia um teor positivo na atividade de escrita, sendo uma facilitadora no alívio do estresse que advém do dia a dia. Vejamos, a seguir, com mais vagar o que especialistas aduzem no que pertine à pesquisa baseada na proposta da escrita:

A ciência diz que a escrita é terapêutica

Presidente da International Stress Management Association no Brasil (Isma-BR), a psicóloga Ana Maria Rossi defende que as boas sensações que a escrita proporciona são reais e têm uma fundamentação fisiológica.Não é meramente uma fantasia, algo banal. Quando a pessoa escreve uma área do cérebro importante, o córtex pré-frontal, é ativada. Ela é a responsável por esses benefícios”, explica. [...][9]

O ato de escrever é mais poderoso do que as pessoas pensam”, afirma Jordan Peterson, professor de psicologia da Universidade de Toronto, no Canadá, estudioso dos efeitos da escrita na vida e nas emoções das pessoas.[10]

A conclusão de Jordan Peterson é exata; e acertadamente nos afigura que, dependendo do assunto complexo objeto do problema que nos cerca, pode ser bem difícil externá-lo para os pais, para o cônjuge, até mesmo para o profissional (psicólogo/psiquiatra). Entretanto, mesmo levando fatos ao conhecimento externo, nem sempre haverá o entendimento para uma solução definitiva.

Calha referir, contudo, que, em ocorrendo a compreensão, a solução eventualmente permaneça distante, especialmente no que toca às cepas do vírus da corrupção, pois esta pode ser sistêmica, endêmica e sindrômica, o que de per si já são emaranhados ainda mais agravantes.

Escrever a despeito de questões sui generis assim definidas pode representar a busca de alívio para reorganizar pensamentos e expressar sentimentos, pode ser o oxigênio fundamental aos derradeiros suspiros da motivação. Motivação tal que definiria o resultado entre a vida e a morte de milhares de pessoas que anualmente sucumbem no silêncio que nada expressa, tampouco revela o que deve ser entendido primordialmente dentro de si.  

Andar pela vida sem encontrar nenhuns obstáculos é impossível, contudo, não é necessário que se alcance o mais palpitante nível de dor psicológica para começar a pensar em qualidade de vida e em formas que possam minorar as condições postas, inclusive para situações complexas e desoladoras similares às que aqui pincelamos. À vista disso, para darmos foro de correção ao que se pontua, nem os especialistas da psicologia discrepam das peculiaridades relevantes dos ganhos inerentes à escrita terapêutica:

Exercício reflexivo

Rodrigo Melo, psicólogo especialista em análise do comportamento do ICS Brasília, destaca que o experimento traz dados não conhecidos que ajudam a comprovar uma suspeita existente na área psicoterapêutica. “Essa é uma tarefa reflexiva, que ocorre por meio da escrita. Através dela, você enfrenta processos de frustração. Ao escrever, a pessoa materializa a questão, não fica apenas no ‘plano astral’, como uma ideia. Tem um sentido novo e fisicalidade”, explica.

O psicólogo conta que adota a técnica com os seus pacientes. “Em vários momentos, peço para escreverem sobre seu sofrimento, para ter um olhar diferenciado. Isso tudo vai criando um novo sentido para a situação de frustração. Sabíamos que isso funcionava em um nível subjetivo. Agora, temos esse estudo que mostra os níveis de cortisol.”, destaca. [...]

DiMenichi também aposta em aplicações na área médica. “Acredito, absolutamente, que nossos resultados podem influenciar o tratamento psiquiátrico, especificamente para indivíduos com transtorno do estresse pós-traumático e/ou ansiedade generalizada e social”, diz.[11]

A terapia da escrita é apropriada inclusive para pessoas acometidas de doenças geradoras de estresse, tributando-lhe inescondível valor. É o que revela um estudo da Universidade de Baylor, nos Estados Unidos, o qual conseguiu comprovar que foi acelerada a reabilitação de pacientes com câncer, desde que foi usada a escrita para transcrever emoções envolvendo a enfermidade.[12] E, entre outros efeitos positivos à saúde, um estudo desenvolvido junto à Universidade da Califórnia, nos EUA, confirmou que o córtex pré-frontal ventrolateral direito — uma parte do cérebro situada posteriormente aos olhos —, ganha operação para as situações em que escrevemos abordando emoções, implicando uma função terapêutica que se produz nessas atividades. Corrobora, pois, a atenuação de algum incomodo estimulado nas amígdalas, que sói ser conhecido como “nó na garganta”.[13]

Empregando ensejo ao fim colimado nas pesquisas, outras vantagens da terapia da escrita já foram comprovadas cientificamente: diminui o stress, a ansiedade, a pressão arterial; traz progresso ao foco, à memória, ao sono; fortifica o sistema imunológico etc.

Quimera do ideal, mas o estilo de pensar orientado ao problema, através da escrita, muda-nos para melhor, sendo, no mínimo, baluarte para manter a motivação empatada com o tamanho dos desafios, quando estes são enormes. Por isso, buscando sepultar o expediente nefasto de corrupção agravado, entre outras razões, pelo isolamento e retaliações várias, escrever pode ser assaz terapêutico; percute, ao depois, como uma maneira de aliviar um fardo; entender melhor um juízo apriorístico ou meramente arejar as ideias opostas à sordidez humana e dar sítio para inovações. Essencialmente, é um modo de fortalecer a mente, empregar novos condicionamentos, como se fossem atividades físicas levando benefícios ao complexo sistema nervoso.

Se escrever é a melhor solução para determinados problemas da psique humana, ainda não sabemos, pois não perdemos a capacidade de aprender a buscar novas formas de obter resultados positivos. Mesmo assim, o ato unilateral possibilita tangenciar aspectos nossos tão sutis que, eventualmente, em algumas sessões de terapia não renderiam igual efeito.

Não suficientes os argumentos de especialistas de escol a chancelar os benefícios da terapia aqui aludida, não se esgotando em um modo de contar histórias, a escrita antes pode ser um meio de ir ao encontro do nosso “eu” e de entender a mola propulsora de uma das maiores chagas da sociedade moderna: a depressão. Em verdade, a expressive writing, ou escrita terapêutica, com o perdão do trocadilho, destina mais tinta à ideia de evolução humana e vem alcançando significativo aproveitamento em tratamentos diversos, inclusive estimulada por profissionais.

Convite a mudanças

Escrever pode ser uma excelente forma de mostrar para o mundo o que não está bem. Temos cânceres pessoais e sociais que precisam ser ditos e transformados em escritas. [...] Quando escrevemos, também entregamos de volta ao mundo aquilo que nos adoeceu. O testemunho de alguns pode ser um convite para a mudança de outros.” Francisco Cavalcante Junior, psicólogo e professor.[14]

É manifesto que a vida em sociedade, sendo um tema fundamental, funda-se em sua normatização jurídica, entretanto, respondendo pela tangente, a mera mudança através da terapia escrita nem sempre é capaz de alterar densos costumes arraigados em uma sociedade por vezes descolada do escopo da lei. Mister esmiuçar, doravante, por que a interpretação de um todo complexo, servindo-se da tópica — estilo de pensar orientado ao problema —, pode andar junto com o propósito de augurar soluções.

Agregue-se a esse contexto, ora abreviado, que, nos albores de indesejáveis condições, em função dos estudos que se nos apraziam pertinentes, dedicamos ênfase em compreender alternativas melhores no afã de pensar sobre os problemas que se nos ocorriam. Um dos investimentos suscitadores de uma alternativa ao método que adotamos foi o proveito da obra “Interpretação, Retórica e Linguagem” de George Salomão Leite e Lenio Luiz Streck. Assim, tornamos um todo facilitador a tópica jurídica — como técnica de interpretação nos desafios de melhor entender outro desfecho —, jungido à expressão sufocada acerca do caso inimaginável que se nos impôs.

O método tópico-problemático surge na década de 50. Ao contrário do método clássico, não está centrado na norma ou no sistema jurídico, mas no problema. Não se vincula à lógica formal — pela qual a atividade judicial se restringia ao estabelecimento da premissa maior do silogismo —, mas à lógica do razoável, sustentado por meio de argumentação consistente. O papel do juiz é construir a   melhor solução para o problema, realizando a justiça do caso concreto. Para tanto, o intérprete pode recorrer aos termos expressos dos textos legais, mas também a argumentos baseados nos fatos relevantes, na realidade social, nos valores e nos princípios gerais do Direito. Embora não se negue a relevância do Direito legislado, não é dele a primazia. A tópica representa a expressão máxima da tese segundo a qual o raciocínio jurídico deve orientar-se pela solução do problema, e não pela busca de coerência interna para o sistema.[15]

Com o desiderato de compreender a tópica por nós aplicada como sucedâneo, podemos definir que, na seara do Direito, dentro do objeto de estudo da hermenêutica, a origem da tópica, que, nas palavras de George Salomão Leite: “surge na Alemanha alguns anos depois da Segunda Guerra Mundial, com o intento de responder à crise do positivismo desencadeada pela implantação de regimes totalitários.”, desenha linhas opostas ao método matemático-cartesiano e à vontade arbitrária de um poder que se acha absoluto na sociedade, muito próximo ao que observamos na corrupção junto à Administração Pública.

O estilo de pensar por problemas, ou procedimento de busca por premissas, ressurgiu em 1953 por intermédio da obra "Tópica e Jurisprudência" de Theodor Viehweg, configurando uma reação ao vácuo que o positivismo lógico-dedutivo deixou, o que separou o direito legislado da realidade. Desde então, explica Leite, “reacendeu-se o debate em torno da estrutura do pensamento jurídico, que para o citado autor [Viehweg] é um pensamento voltado para o problema, contraposto, desde logo, ao pensamento sistemático.”, o que situa a tópica como ensejadora de recomendações de como se comportar em circunstâncias não previstas em lei, a fim de não ficar preso, sem saída, levando em conta que o pensamento sistemático emprega destaque no sistema.

Mister é, assim, a multidisciplinaridade, já que opera uma triagem dos problemas, de maneira que — afora a limitação de uma ansiada legislação que se adequasse ao que vivenciamos no mundo real em que a sociedade é por natureza corrupta —, omissões e conivências configuradas na atuação da Administração Pública não nos seria relevante na solução de desfechos inimagináveis, ainda mais quando agravados pela conduta faltosa do Estado. Ademais, ilhados igualmente em um complexo laboral “corporativista”, em que se destaca o assédio moral (isolamento) ligado à mínima possibilidade de dialogar sobre desafios enfrentados levar-nos-ia a um resultado fatal. Assim não o foi para o autor, pois os efeitos colaterais de denunciar são enfrentados a todo o instante, tal qual um inimigo na guerra.   

É possível dizer mais, vez que o aspecto da corrupção sistêmica, endêmica e sindrômica alinhado com uma interpretação tópico-problemática, que se aperfeiçoa com o uso da escrita terapêutica, oportuniza a sabedoria, incentiva a memória e nos possibilita descobrir ângulos distintos para se definir uma condição antes complicada por motivações outras. Ou ainda, é como descobrir que não estamos à própria sorte, atestada a incapacidade do Estado e de agentes públicos a amparar retaliações ao dever de denunciar.

A vantagem da análise multidisciplinar, através da filosofia, da psicologia, do direito, é transcender em muito a assepsia do discurso social tradicional fundado na simples análise superficial dos problemas. Sem esse intercâmbio de saberes, a dissociação de conceitos jurídicos abstratos e técnicas gerais não permitem definir a “técnica do pensamento problemático”, porque não partem do problema em suas diversas facetas, não buscam solucioná-lo sem nele se vincular. Curial se faz examinar e confrontar premissas, de modo dialético, em que se busca uma verdade que se apresente como um recurso adequado para o caso concreto.

Algo parecido ocorre, por exemplo, quando um grande autor escreve seus livros, ou quando o reescreve com novas interpretações, permitindo inclusive notáveis teorias a engrandecer o conhecimento e a evolução da humanidade. Arriscamos dizer que algo similar ocorre quando um juiz escreve uma sentença, pois o ato de escrever, antecipado pela fase do saneamento do processo, define um esforço além da simples subsunção do fato à norma, resultando que a escrita possibilita a solução de problemas judiciais complexos.

Não cabe analisar, portanto, o efeito colateral de denunciar posto em apreciações geométricas se não se atentar em aperfeiçoá-lo com um viés técnico e até com cientificismo pensante, tanto que, do que aqui é demonstrado, estudos têm apontado resultados de caráter prático da narrativa escrita a prol da saúde em geral, física e psíquica, de pessoas que têm dedicado uma fração de tempo de sua rotina a fim de anotar no papel as experiências. Além do aspecto axiológico, falar sobre acontecimentos negativos, jamais como uma imagem congelada e hirta, pode ser realmente uma terapia determinante em algumas circunstâncias.

Entre as técnicas de enfrentamento para a solução dos problemas, dentro da prevenção e intervenção na Síndrome de Burnout, destaca-se a proposta de D’Zurilla & Goldfried (1971), cuja citação foi bem sintetizada a seguir:

Técnica de solução de problemas

Desde o ponto de vista da solução de problemas, o primeiro passo para conseguir uma solução eficaz é aprender a identificar o problema. Na vida diária, continuamente aparecem novos problemas, situações que temos que resolver de maneira imediata; aprender a solucionar as adversidades permitirá adaptar-se ao meio de uma modo eficaz e positivo. Reconhecer e identificar o problema, assim como as variáveis que estão relacionadas, possibilita responder ante a ele de uma forma relaxada, escolhendo a estratégia mais adequada. [...] Diante de uma situação estressante, a técnica de solução de problemas facilita a eliciação de soluções, não obstante este passo se acompanhe de uma análise exaustiva das diferentes alternativas, estudando suas vantagens e inconveniências, até que se alcance a eleição da resposta mais positiva, que possibilite mais benefícios à pessoa. A aplicação desta técnica na prevenção e intervenção ante o burnout tem oferecido resultados muito positivos com profissionais do setor hospitalar (Kunkler & Whittick, 1991; Stevens & Pfost, 1983). Estudos com profissionais não assistenciais também têm revelado sua eficácia (Son, Rozeman & Versloot, 1993). Adicionalmente, o treinamento na solução de problemas também contribui de maneira importante aos sentimentos de auto­eficácia do trabalhador, dotando-lhe de estratégias para fazer frente às situações problemáticas.[16]

Esclarecido isso, prossigamos.

Não raro, ao desfilar nossos olhos sobre os fragmentos éticos, parece que a Administração Pública demonstra um apego exemplar às normas que se lhe impõem.

Permitimo-nos discordar.

Nem tudo que parece faticamente o é. Como resultado, não obstante nossa atuação junto à Administração Pública tonificar uma desenvoltura profissional atenta às práticas omissivas de agentes públicos, só para ficar com esse aspecto, não há, na nossa considerável experiência profissional, a observância prática do tal apego acima referido. A norma sucumbe à realidade. E não é preciso diferenciar pessoas instruídas ou de elevados postos hierárquicos para chegarmos à conclusão dissonante do que se espera de agentes públicos que silenciam o diálogo em desfavor de denunciantes, especialmente quando aqueles prestam apoio à conivência com o escopo de proteger um grupo de pessoas e seus interesses escusos. Com base nesse panorama, praticar a “escrita terapêutica” situa o agente retaliado no papel de observador de si para o que se lhe apresenta demasiado complexo: a corrupção e suas cepas virais.

A algumas dessas cepas podemos empregar noções básicas: o medo de denunciar, a possibilidade de retaliações, o conluio do “corporativismo”, a má-gestão com o consequente passivo trabalhista, enfim, toda espécie de acossamentos que fazem a roda da corrupção girar ladeira abaixo, atropelando sonhos, pessoas de bem, a reputação do Brasil.

Estamos a vivenciar um paradoxo, em que se trivializa a corrupção, mas se antagoniza a sua denunciação. Sinal dos tempos de que se esconde o óbvio à sombra da hipócrita repulsa à corrupção. Que a iteração desta ocorrência, todavia, somente nos dê força para continuar a denunciando.

Convém ter presente, por fim, que a necessidade de perscrutar respostas nos permite concluir que, se os desafios forem inquietantes, se a vida trouxer problemas envoltos no claustro depressivo do silêncio, do isolamento, escreva-os para si, ao menos assim servirão de caixa de ressonância para as vozes que ecoam grosseiras omissões travestidas de indiferença e um tanto simpáticas à corrupção. Afinal, não havendo a certeza de que a “corruptopatia” terá fim nesse país, conforme bem escrevia o poeta Fernando Pessoa, “Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir”, caminhamos, desse modo, simbióticos, empregando importância ao patrimônio mais caro — a vida —, crendo que, em verdade, venceremos esse estágio retrógado em que se encontra a sociedade hodierna.

Para o atingimento desse fim, rente à reflexão que propomos, sintetizamos o epílogo de uma categórica compreensão de que o homem deixou de viver na natureza — onde ele é naturalmente bom — para viver em sociedade, mas que, segundo nos definiu Rousseau, a vivência nesta, por cobiça à propriedade, acarreta a corrupção da espécie humana.

Não bastasse a capitalização dos objetos de desejo do homem, o “poder” que precede a ânsia de ter sempre mais transforma o valor das pessoas. Tomou este autor, todavia, caminho diverso na medida em que descapitalizou objetos de desejo, conferindo poder aos valores fundamentais. Um preço caro que, a despeito do efeito colateral de denunciar, toma-nos de barganha a dignidade da vida, a saúde, pessoas que amamos, entre outros valores imateriais, mas não nos toma a esperança. Em razão de tanto, vocacionados ainda estamos para que a restituição de um sistema hígido e unificado possa reverter o quadrante de estigmas prejudiciais e enraizados que atentam contra informantes do bem: naturalizando a denunciação, e desavezando a corrupção do funcionalismo público.

Não custa lembrar que a qualidade de vida define-se como componente fundamental para o homem poder viver de maneira digna na sociedade e no seu local de trabalho, realidade distante do que ocasionalmente precisam enfrentar os denunciantes, consoante o caso aqui pincelado. Em verdade, ao avistar o cavalo de troia da corrupção, desvelamos o que se tentava ocultar, e, de lambuja, levamos o coice: a depravação da nossa dignidade.

Por todo o exposto, percebe-se que quem pretende denunciar a corrupção precisa assumir toda espécie de efeitos que radicam desse cenário, especialmente pela dicotomia existente no que se quer combater e pelo que não se deseja perder: vínculos afetivos, higidez física e mental, qualidade de vida, a própria vida. Em suma, se pudéssemos escolher um final feliz dessa experiência de denunciar a corrupção, certamente seria escrevendo os benefícios desse ato, jamais estranhos capítulos de um livro de terror, capítulos que, neste caso, restam escritos galgando vagarosamente degraus do nosso sofrimento.

Em nosso sentir, prestamos o testemunho, ainda que genérico e descolado do que realmente vivemos, de que problemas aparentemente impossíveis têm caminhos sendo registrados em nosso mapa interior, no qual se define um entrechoque: o mal do século da depressão tentando não se perder no mal do século da corrupção. Afora os aspectos retroelencados, escrever sobre as cepas virais da corrupção, majorante dos nossos problemas, sem correr o risco de se desnortear no tecnicismo, escrevinhando em falso, abriga a mínima possibilidade de superação, recrudesce a força, é uma terapia natural, confere uma ferramenta de autoajuda, a ponte de ouro da morte para a vida, especialmente porque esperamos que o melhor ainda não esteja escrito, ainda que nas entrelinhas.

O presente esboço continuará em momento subsequente.


Autor

  • Elton Rockenbach Baron

    Bacharelando em Direito, Empregado Público Estadual e aspirante a Promotor de Justiça.

    Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão fartos. J. C.

    A vida tem sentido quando a investimos na vida dos outros, ou quando encarnamos a luta dos outros como se ela fosse nossa, a luta do coletivo. Eis meu escopo: despender esforços pela construção contínua da justiça social, a transformação, com justiça, da realidade social, máxime quando os beneficiados são idosos, deficientes, crianças e adolescentes. O desafio vem sendo o esmero na renhida luta em busca do bem comum, não dando tréguas àqueles que se desviam dos ditames constitucionais e legais, com os olhos voltados à concretização da Justiça, sobretudo contra crimes hediondos, crimes políticos e o abandono e maus tratos a animais. Contate-me sobre os supracitados temas: [email protected]

    “Não é o crítico que importa nem aquele que mostra como o homem forte tropeça, ou onde o realizador das proezas poderia ter feito melhor. O crédito pertence ao homem que se encontra na arena, com o rosto manchado de poeira, suor e sangue; que luta com valentia; que erra e tenta de novo e de novo; […] que conhece os grandes entusiasmos e as grandes devoções; que se sacrifica por uma causa nobre; que ao menos conhece, no final, o triunfo de uma grande realização; e que, na pior das hipóteses, se fracassar, pelo menos fracassou ousando grandes coisas; e por isso o seu lugar não pode ser junto àquelas almas tímidas e frias que não conhecem nem vitórias nem derrotas.” (Theodore Roosevelt)

    Textos publicados pelo autor

    Fale com o autor


Informações sobre o texto

Como citar este texto (NBR 6023:2018 ABNT)

BARON, Elton Rockenbach. Cepas virais da corrupção: a escrita como força motriz a atenuar o efeito colateral de denunciar. Revista Jus Navigandi, ISSN 1518-4862, Teresina, ano 26, n. 6709, 13 nov. 2021. Disponível em: https://jus.com.br/artigos/84605. Acesso em: 1 dez. 2021.

Comentários

1

Autorizo divulgar minha mensagem juntamente com meus dados de identificação.
A divulgação será por tempo indeterminado, mas eu poderei solicitar a remoção no futuro.
Concordo com a Política de Privacidade e a Política de Tratamento de Dados do Jus.

Regras de uso
  • 0

    SANDRA DE MORAES

    estou cansada, e descrente da justiça a qual eu descobrir que é unilateral onde os que devem ser imparciais.
    mas basta uma pessoa ter uma certa influência ter amigos dentro um foro, usa esses para prejudicar uma pessoa.