O resultado das eleições presidenciais pode ter reflexos importantes na exploração do Pré-Sal e na política externa do Brasil. Isto é bem mais importante do que a vida privada da dona de um Banco que apoia Marina Silva.

Um dos fenomenos que marcaram a eleição presidencial passada foi o estranho papel que a filha de José Serra desempenhou. Ela não disputava nenhum cargo eletivo e mesmo assim acabou sendo colocada no centro da disputa e sua vida pessoal foi intensamente discutida pelos jornalistas. Ela também foi muito usada pelo candidato tucano em sua propaganda eleitoral.

O mesmo fenômeno se repete este ano, mas a pessoa colocada no centro da disputa foi a herdeira do Banco Itaú. Neca Setubal não esconde seu apoio a Marina Silva e faz questão de ser filmada e fotografada ao lado de sua candidata. Ela é atacada pelos adversários da candidata do PSB e defendida na grande imprensa por vários jornalistas influentes.

É assim que a eleição perde o foco. Ao invés de discutir as propostas dos candidatos os eleitores são levados a debater a vida privada de pessoas ligadas aos mesmos que são irrelevantes do ponto de vista eleitoral. Rapidamente o Pré-Sal, reserva de petróleo que poderá financiar a educação das gerações futuras de brasileiros, se torna um assunto menos importante do que a roupa que Neca Setubal usou, o que ela disse ou por que foi injustamente atacada.

A política externa raramente é tema das eleições. E no entanto deveria ser do interesse de todos os brasileiros, já que o que o Brasil faz no exterior afeta ou pode afetar diretamente as vidas das pessoas comuns dentro do país. A motivação pessoal ou empresarial que levou Neca Setubal a apoiar Marina Silva é bem menos importante para o futuro dos brasileiros do que a preservação do Mercosul, o aprofundamento das relações do Brasil com os países que compõe o BRICS e a estratégia brasileira para equilibrar as relações mundiais de poder valorizando o multilateralismo e as soluções negociadas dos conflitos internacionais.

Os brasileiros não deveriam ter sido convocados a decidir sobre a vida pessoal da filha de José Serra nas últimas eleições. Afinal, assim como foi elevada a condição de tema eleitoral ela desapareceu da cena pública e política nos 4 anos subsequentes. Nestas eleições não deveríamos ser conduzidos a debater a vida privada de Neca Setubal. Afinal, ela somente será notícia nos próximos anos se o Itaú falir e ela for obrigada a responder pela dívida fiscal do Banco com seu patrimônio pessoal (algo muito improvável).

A Política diz respeito ao bem estar público. Os interesses privados das pessoas ligadas aos candidatos deveriam ser considerados irrelevantes nas disputas eleitorais exceto quando forem capazes de produzir danos ao patrimônio público.  No entanto, por força da guerra de palavras os atores secundários das disputas eleitorais acabam quase sempre dificultando a discussão sobre os temas de interesse geral.

Neca Setubal se elevou à condição de tema eleitoral ao aparecer ostensivamente ao lado de Marina Silva, cuja campanha parece estar financiando. É justo que seus motivos sejam questionados. É injusto, porém, que a dona do Itaú seja transformada num item da disputa eleitoral mais importante do que o Pré-Sal e do que a política externa brasileira.

O Itaú é e continuará sendo apenas um pequeno Banco perto da Petrobras, empresa que tem tudo para se transformar na maior companhia mundial do seu ramo nos próximos anos caso o Pré-Sal brasileiro não seja entregue à exploração das empresas multinacionais (Aécio Neves) ou tenha sua exploração interrompida (Marina Silva). Os interesses econômicos internos ligados à atual política externa do Brasil são de longe muito mais importantes do que a roupa ou a saúde financeira de Neca Setubal e os lucros do pequeno Banco dela.

Desviar a atenção dos 140 milhões de eleitores brasileiros destas duas questões públicas (petróleo e política externa) para a vida privada irrelevante de Neca Setubal é uma excelente maneira de reduzir a Política nas eleições presidenciais. Quem ganha algo fazendo isto e por que? Esta meus caros é a verdadeira pergunta.



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