Uma análise do filme "50 tons de cinza" sobre o prisma da Lei Maria da Penha.

Após o bombardeio publicitário, cedi ao famigerado 50 Tons de Cinza. Entre atuações pífias e a morosidade do filme, me atraiu as nefastas consequências do “Raio Gourmetizador”. O termo francês “gourmet” está associado à alta gastronomia, na qual, a partir de produtos simples, com elementos sofisticados, elaboram-se pratos exóticos e, consequentemente, caros. Esse efeito está ligado ainda ao design da embalagem. Uma simples água mineral, vendida em uma garrafa ecologicamente produzida, triplica de preço.

Como na culinária, somos afetados por esse raio, que converte o abominável em aceitável, apenas com uma embalagem bonita e uma pesada publicidade. Dou-lhe exemplos: Anderson Silva, “o herói”, pego no antidoping, ganhou uma linda homenagem. Um tributo à trapaça. A mídia interessada em vender pacotes de canais de luta, produz heróis que representam dinheiro. Ele não foi o primeiro herói produzido e não demora muito pra mídia achar outro.

Em um reality show, diariamente, os “heróis da nave louca” têm relações sexuais diante das câmeras, e tudo isso encarado com assustadora naturalidade. Na novela das nove, o protagonista fingiu-se de morto, sonegou impostos, tratou garimpeiros do seu “império” como escravos, e por tudo isso, na vida real, foi manchete, “Comendador, o homem mais amado do Brasil”.

Voltando à aquarela cinzenta, é preciso reconhecer que o Raio Gourmetizador fez um belo trabalho no filme. Baseado no livro homônimo, com 20 milhões de cópias vendidas, Christian Grey, um homem rico, sedutor e poderoso, persegue e intimida a jovem Anastácia, que sofre todas as formas de abuso ao ponto de perder a própria identidade e pasmem, a obra é considerada um filme para mulheres.

Assim, depois do trabalho do Raio Gourmetizador, que implantou milhões de dólares em publicidade, percebe-se que o filme glamouriza a violência contra a mulher e contribui para que isso seja considerado normal pela sociedade.

Segundo a Lei Maria da Penha, a violência contra a mulher configura-se como qualquer ato baseado no gênero que lhe cause morte, lesão, sofrimento físico, sexual ou psicológico e etc. Chama atenção que a sala de cinema estava cheia de mulheres, quando no Brasil, a cada 5 minutos uma é agredida e segundo o Mapa da Violência, Lages ocupa a 17ª posição no ranking nacional de feminicídios, só em janeiro de 2015, a Delegacia da Mulher confeccionou 550 B. O’s de violência doméstica.

Trata-se da coisificação da mulher. Grey deixou isso claro ao propor um contrato que, sutilmente, faz de Ana sua escrava, apontando cada movimento e explicitando a confidencialidade dessa relação. O inciso II, do artigo 108, do Código Civil, diz que a validade do negócio jurídico requer objeto lícito e não proibido em lei, ou seja, a liberdade é inegociável.

Sofremos a Síndrome de Estocolmo, estado psicológico em que uma pessoa submetida a um prolongado tempo de intimidação, passa a simpatizar com o agressor. Em suma, vivemos a gourmetização do indigesto, em que a mentira é campeã de bilheteria.



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