O artigo traz uma crítica acerca do que realmente seria a educação sem partido e a meritocracia.

A educação é um mérito e há mérito na educação. Com isto quero dizer que não há neutralidade no ato de educar: os comunistas a comemoram, assim como os liberais e os fascistas. Os nazistas empenhavam-se em educar as crianças arianas, por exemplo, como se treina ratos em laboratório: Mengele “trabalhava” quantas horas por dia? Por outro lado, suas resistências não ficavam estáticas. Assim, também quero dizer que educar para a meritocracia não é um pecado. O que precisamos ver com clareza é o que se trata de meritocracia.

Por exemplo, empenhar-se exaustivamente na Educação em Direitos Humanos é um passo largo no horizonte do Processo Civilizatório, tanto quanto supor uma “escola sem partido” é uma banalização do Mal: não existe sequer um ato humano em que não se tome partido, em que não se incline à escolha de um lado, de uma “parte” envolvida. O juiz – aquele que celebra a neutralidade de sua decisão – toma partido incessantemente; aliás, diz-se que uma das “partes” invariavelmente sai contrariada, que sua taxa de aprovação nunca passa de cinquenta por cento. Isto é tão óbvio quanto dizer que “as partes compõem o todo”; porque, salvo regimes totalitários, nunca uma parte será o todo – ainda que se queira passar por ela: neste ponto será profundamente ideológica.

Karl Marx, formulador do materialismo-dialético, no Manifesto do Partido Comunista, grafou em letras quase maiúsculas: “a cada um segundo sua necessidade; de cada um, de acordo com sua capacidade”. Ora, em sociedade, espera-se que cada um faça o seu melhor. Até mesmo psicopatas que gerem o mundo do mercado labutam para ter o máximo, mesmo que isto implique em massacrar milhares, milhões de pessoas.

Então, a diferença quanto ao conteúdo da meritocracia desejada, esperada, estimulada – para usar uma expressão da moda – está no “empoderamento” que daí resulte. Para quem trabalhamos, empregamos o melhor de nossas forças físicas e espirituais? Para abastecer as fortunas privadas que dominam o “mercado”, em oligopólios e monopólios, ou de acordo com o espírito público? Ermírio de Moraes – Votorantim – gabava-se de trabalhar 16 horas diárias. Era um direito seu, afinal, queria aumentar seu império e fortuna já incalculáveis. Outra coisa bem diferente é cobrar que todos os trabalhadores enfrentem jornadas de 16 horas – para só um enriquecer.

Particularmente – e isto se aplica à imensa maioria dos professores –, tenho satisfação no meu trabalho e produção. Mas, isto me confere o direito de exigir o mesmo ritmo dos meus alunos? Seria ridículo pensar que sim. Este “certo orgulho” em produzir já foi pior, quando a compulsão era ainda maior e, sinceramente, nunca li que compulsão fosse uma benesse, um exemplo a ser seguido.

Balzac, gênio da literatura francesa – sem computador, obviamente – escreveu uma obra gigantesca (A Comédia Humana). Em parte por necessidade, vendia seus escritos, em parte pela compulsão: mal dormia, comia quando se lembrava, tomava litros de café diariamente e morreu sonhando com a fadiga. Foi um precursor do “trabalho compulsivo”: workaholic. O fato é que milionários, bilionários do mercado são viciados em ganhar dinheiro, assim como qualquer alcoólatra: “idólatras do vício”.

Antonio Gramsci, dirigente do Partido Comunista Italiano, morto nos porões de Mussolini, observou em cartas sua preocupação com a educação do filho. Alertava para o perigo – tempo perdido na distração – de seu filho passar muitas horas brincando com certos artefatos autônomos: chamava-se meccano.

Quem sabe inspirado no Mecanismo, movimento filosófico do Renascimento: o mecanismo engendrado ali foi o Estado e sua razão moderna.

Gramsci alertava para o risco do tecnicismo, “a intoxicação matemática”, o americanismo maquinal, seco, próprio a um tipo de razão instrumentalizada pelo mercado e pelo capital dominante.

Então, dedicar-se muito à República, democracia, Justiça Social, socialização das riquezas produzidas, compartilháveis pelo conjunto dos cidadãos que efetivamente trabalhem ou para aqueles que precisem de nossa proteção especial, não é pecado, nem usura. Todavia, dedicar-se exclusivamente ao enriquecimento pessoal, em fase de acumulação egoísta (como doença psíquica e egóica) e típica dos cínicos que exigem dos outros apenas o que é lucrativo para si, é sinal de degeneração social.

Portanto, educação para a meritocracia sim, a fim de que os méritos sejam socializados republicanamente, e não apinhados nas contas bancárias do tamanho do ego doentio.

Como é que se pode dizer, com um mínimo de racionalidade, que educação não tem partido? Equivale à tolice dos que se nutrem do analfabetismo disfuncional. E isto condiz claramente com o pensamento único do fascismo: “Tomar o partido de El Duce ou morrer!”.


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Como citar este texto (NBR 6023:2002 ABNT)

MARTINEZ, Vinício. Educar para a meritocracia. Revista Jus Navigandi, ISSN 1518-4862, Teresina, ano 22, n. 5286, 21 dez. 2017. Disponível em: <https://jus.com.br/artigos/62493>. Acesso em: 22 set. 2018.

Comentários

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    LUCY SOARES CHAVES

    Muito bom artigo. Amei.
    Meritocracia sim, mas não para alimentar a vaidade de uns poucos espertalhões. Não querendo ser piegas cito versículo bíblico do provérbio de Salomão:

    Eclesiastes 6:2
    Deus concede riquezas, bens e honra a um homem, e nada lhe falta de tudo o que poderia imaginar; contudo, o próprio Deus não lhe permite desfrutar de todos esses recursos; mas outra pessoa, vinda de outro lugar, é quem irá aproveitar dos seus haveres. Ora, isso não faz sentido, é pura ilusão e sofrimento cruel.

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