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O PERÍODO DA EXTINÇÃO DAS ESPÉCIES.

26/06/2019 às 17:10

É crescente o avanço do agronegócio sobre extensas áreas. Mudanças na fiscalização e na liberação de licenças para desmatamento. E a construção e asfaltamento das rodovias. É o cenário perfeito para o contexto que será abordado.

O Quinário é o período da extinção das espécies.

A banalização da própria vida do ser humano, nos leva a cegueira sobre a extinção. Vejo a necessidade de falar sobre um assunto em especial, que tem ligação direta com todo o equilíbrio econômico e a logística de locomoção. Viajo muito pelas estradas do Brasil, e principalmente nas rodovias goianas. E passei a observar o crescimento de algo que virou estatística, que envolve uma especifica política pública para resolver o problema: A morte diária de diversas espécies de animais silvestres, principalmente mamíferos, alguns na lista de risco de extinção, no bioma Cerrado.

A vida nesse planeta evoluiu por diversos períodos, a raça humana no final do período Quaternário.

Na academia de Geografia da Universidade Federal de Goiás, onde me tornei Geógrafo Professor, surgiu o debate sobre um novo período onde a atividade humana começou a mudar a natureza e consequentemente a paisagem. Seguindo nessa linha, me pautarei ao Período da Extinção das Espécies – o Quinário. Nesse período muitas espécies foram extintas: O Dodô - das ilhas Maurício no Oceano Índico e o Lobo da Tasmânia - em 1936. Todos nos séculos passados. A lista de animais extintos e em risco de extinção só veem aumentando.

Diversos fatores influenciaram a extinção de animais, desde que o ser humano começou a espalhar-se sobre a Terra. Diante da complexidade sobre esse assunto, gostaria que me fosse permitido compartilhar um estudo especifico sobre a relação extinção de espécies, para a extinção especifica de animais no Bioma Cerrado, e mais estrito ainda, na rodovia GO 437.

A relação dos animais observados, tem fortes ligações com o avanço das áreas de cultivo de grãos, pastoril, silviculturas, uso de massa asfáltica, na malha rodoviária, que contribuiu para os veículos circularem em alta velocidade em trechos antes de estrada de chão, e agora asfaltados e sem fiscalização, com efeitos drásticos nos “habitats dos animais”.

O Código Florestal reconheceu e criou regras sobre a fauna e flora brasiliana. Protege a Mata Atlântica e outros biomas. No entanto o Cerrado ficou de fora, e consequentemente a cada ano as áreas agropecuárias avançam com o desmatamento. Contribuindo para extinção de animais do Cerrado endêmico. Ambos, fauna e flora, sofrem diante dos interesses econômicos e sociais.  Tudo muito complexo diante dos olhos dos estudiosos. Ao debruçar sobre os estudos dos dados e dos reais motivos que levaram à morte dos animais, visualizei um amenizador para frear o número crescente de animais mortos do Cerrado, que transitam entre os poucos Corredores Ecológicos que cruzam as diversas rodovias Federais e Estaduais do Brasil.

Não quero, não posso, não busco, criar um paradigma, mais proporcionar um ponto de reflexão, para amenizar o problema e dar aos animais uma chance mínima de continuar vivendo. Visto que não seguem as regras e leis dos homens.

O fato alarmante é que algumas espécies não dão conta de atender a demanda de mortes, de seus predadores naturais, se somadas aos dos caçadores e principalmente das estradas. Pois a quantidade de filhos que nascem durante um ano é o que desfavorece as espécies. O quadro abaixo mostra uma conta que não bate. Pois o número de indivíduos mortos é superior aos nascimentos.

 As coletas dos dados levaram 12 meses, e trazem algumas considerações levantadas em campo.

Quadro I

ANIMAIS MORTOS NA GO 437

ANIMAL

QUANTIDADE

FILHOTE POR ANO

LOBO GUARÁ

2

2

RAPOSAS

11

2 a 5

SARIEMAS

15

2

TATÚ PEBA

12

2 a 4

TATÚ GALINHA

1

2 a 4

PORCO ESPINHO

2

1 a 2

CABURÉ

20

1 a 2

QUATI

9

2 a 6

CORUJA BRANCA

1

1

VEADO-CAMPEIRO

2

1

TAMANDUÁ-BANDEIRA

6

1

 

A coleta de dados foi realizada durante 12 meses, de janeiro de 2018 à janeiro de 2019, ao longo da rodovia GO 437. Todos os indivíduos encontrados já estavam mortos a pouco tempo ou em estado de decomposição. Observou-se que no caso da Raposas a maioria eram machos. Os Veados-Campeiros eram um jovem macho e uma fêmea adulta. Já no caso do Tamanduá-Bandeira (Foto II), foi visto entre os animais mortos, três adultos machos, uma fêmea com seu filho, e um filhote de pouco mais de 40 centímetros. Os Lobos-Guarás, eram um macho adulto e uma fêmea.  Todos os animais foram encontrado mortos próximos das pontas dos Corredores Ecológicos, cruzando a GO 437, que liga o Distrito Agroindustrial de Anápolis – DAIA na GO 330, passando por Gameleira de Goiás, até a Cidade de Silvânia.  

Na imagem de satélite que estudei, visualiazei a existência dos Corredores Ecológicos criados para “mitigar os efeitos da fragmentação dos ecossistemas promovendo a ligação entre diferentes áreas, com o objetivo de proporcionar o deslocamento de animais” (apesar de algumas espécies não fazerem uso), “a dispersão de sementes, aumento da cobertura vegetal. Que são instituídos com base em informações como estudos sobre o deslocamento de espécies.” (Ministério do Meio Ambiente - MMA).

Ao fazer o deslocamento diário pela GO 437, me deparei com alguns animais cruzando a pista como: Tamanduá-Bandeira, Raposa, Tatu Peba e Caburé, esse último voando. Outros animais já os encontrei mortos. Meu deslocando diário na velocidade permitida e sinalizada na via de 80 KM/H, sempre tive tempo de frear ou desviar, sem pôr em risco a dirigibilidade do veículo e a vida dos animais. Ponto importante a ser considerado nesse estudo.

O artigo 218 do Código Brasileiro de Transito – CBT, trata das infrações por excesso de velocidade. Se fosse possível reunir a necessidade de fiscalizar os excessos de velocidade, na aplicabilidade aos pontos importantes das vias, compreendendo as Federais e Estaduais, com redutores de velocidade por meio de LOMBADAS HORIZONTAIS OU ELETRÔNICAS. As vidas de muitos animais poderiam ser preservadas. Como observaremos existem pontos críticos de atropelamento de animais. E nestes pontos, recomendamos a fixação de LOMBADAS HORIZONTAIS e nos demais ELETRÔNICAS. Uma ação simples como essa daria a oportunidade ao animal de terminar a travessia e ao motorista de frear ou desviar quando deparado com a súbita entrada do animal na ESTRADA.

Temos imagens de satélites, não publicadas aqui, dos trechos da GO 437 onde foram encontrados os animais mortos. Com locais onde há incidência de atropelamento e onde foram encontrados ao longo dos 12 meses, animais do Bioma Cerrado mortos por atropelamento.

                Ao compartilhar esse estudo, como membro de uma sociedade, inquieta de pesquisadores, preocupada com a herança que deixamos para as futuras gerações. Digo que a fixação de lombadas horizontais ou eletrônicas, mais precisamente a primeira, em pontos estratégicos das rodovias, para reduzir as velocidades somada: a conscientização dos fazendeiros, para não matarem os animais silvestres dentro de suas propriedades; uma fiscalização maior aos caçadores de animais do bioma Cerrado.

Reafirme que a criação de mais corredores ecológicos, juntos com lombadas horizontais ou eletrônicas nos pontos que cruzam as rodovias, podem dar aos animais a chance mínima, dentro do contesto dos agronegócios, de viverem por mais tempo.

 

Bibliografias:

www.mma.gov.br

Lei nº9.985 de 2000.

Decreto 4340 de 2002.

Código Brasileiro de Trânsito, Lei nº 9.503 de 23 de setembro de 1997. Atualizado pela Lei nº 13.281 de 2016.

Imagens de Satélite da Google Earth Pro.

 

Sobre o autor
Hilton Pimenta

Geógrafo Professor formado pela Universidade Federal de Goiás; Direito formado pela FIBRA; Palestrante; Artista Plástico; Escritor; Ecologista e Esportista.

Informações sobre o texto

Este texto foi publicado diretamente pelos autores. Sua divulgação não depende de prévia aprovação pelo conselho editorial do site. Quando selecionados, os textos são divulgados na Revista Jus Navigandi

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