Desde as Olimpíadas de Londres está em vigor a ISO 20121:2012, uma certificação que aborda os Sistemas de Gestão para a Sustentabilidade de Eventos como a Copa. Mas no Brasil, o único evento certificado é o Rock in Rio...

Muitos dos eventos promovidos na cidade de São Paulo duram poucas horas. Mas mesmo assim, através do consumo de matérias e resíduos gerados, do deslocamento de organizadores e participantes, do consumo de água, energia, uso de geradores, efeitos sobre a biodiversidade, acabam provocando um impacto ambiental. São mais de 100 mil eventos por ano, causando danos socioambientais!

Para minimizar os efeitos danosos desse impacto e conscientizar o público que frequenta tais eventos, foram adotadas novas normas e padrões internacionais para eventos (ISO 20121) e relatórios (GRI EOSS). O Brasil e o Reino Unido, representados respectivamente, pela ABNT e British Standards Institute (BSI), dividiram a liderança, tanto na coordenação quando na secretaria do Comitê Técnico da ISO encarregado de elaborar uma norma internacional sobre sustentabilidade na gestão de eventos, a ISO/ PC 250- Sustainability in event management, que resultou na publicação, em janeiro de 2012, ano em que Londres sediou os Jogos Olímpicos, da ISO 20121:2012, como ficou conhecida.

A ISO 20121:2012, Sistemas de gestão para a sustentabilidade de eventos - Requisitos com orientações de uso, foi criada para garantir que eventos, desde pequenas festas locais até "megaeventos" como os Jogos Olímpicos e a Copa do Mundo, deixem um legado positivo após a sua realização.

A nova norma aplica-se a todos os integrantes da cadeia de suprimentos da indústria de eventos, incluindo organizadores, gestores de eventos, construtores de stands e operadores logísticos.

Conferências, concertos, eventos esportivos, exposições e festivais podem gerar uma ampla gama de benefícios públicos, comunitários e econômicos. No entanto, a realização de um evento pode também gerar impactos ambientais, sociais e econômicos negativos, tais como o desperdício de materiais, o consumo excessivo de energia e problemas para as comunidades locais.

A ISO 20121 fornece uma estrutura (framework) para identificar, reduzir e eliminar os impactos potencialmente negativos de eventos, bem como para maximizar os seus impactos positivos através de um melhor planejamento e de processos aprimorados.

Entre os que contribuíram para a construção da ISO 20121 estão os membros da equipe de sustentabilidade do Comitê Organizador dos Jogos Olímpicos e Paraolímpicos de Londres. Para o Diretor de Sustentabilidade do Comitê, David Stubbs, "Londres 2012 tem o orgulho de ter sido o catalisador para a ISO 20121. Essa norma é uma parte do legado que deixaremos que poderá transformar a maneira como os eventos ao redor do mundo consideram seus impactos ambientais, sociais e econômicos".

A nova norma possui uma abordagem de sistema de gestão que é bastante familiar para milhares de organizações em todo o mundo que adotam outras normas certificáveis como a ISO 9001 (gestão da qualidade) e a ISO 14001 (gestão ambiental).

A ISO 20121 foi criada pela indústria de eventos para a indústria de eventos. Mais de 30 países e organismos de ligação participaram dos trabalhos de construção da mesma e 35 a adotaram.

No Brasil, a versão em português tem o código ABNT NBR ISO 20121:2012.


A ISO 20121:2012

Falemos primeiramente do sistema ISO 20121 aplicado à produção de eventos. O sistema de gerenciamento da sustentabilidade ISO 20121 ajuda sua organização a estabelecer e alcançar metas realistas, bem como executar as políticas e procedimentos de aplicação de boas práticas, nas agendas delineadas. Ele exige que as equipes que trabalham nos eventos sejam treinadas e participem de workshops sobre auditoria e processos de execução. Também é importante que se leve em conta que deve ser analisada e auditada a cadeia de suprimento de eventos e a organização, que é igualmente importante para o seu sistema de gerenciamento da sustentabilidade.

A ISO 20121 é uma norma que deve ser aplicada a todo tipo de evento ou promoção, quer seja uma simples feira de antiguidades ou artesanato, até a realização de grandes eventos, como temos visto ultimamente. É uma norma aplicada aos organizadores, proprietários dos eventos e fornecedores. A ISO 20121 trabalha embasada em um tripé: 

-A conscientização de sistemas de gerenciamento sutentável para eventos;

-A implementação de gerenciamento sustentável para eventos;

-A Auditoria interna que aponte o caminho correto para tornar um evento sustentável

Aqui no Brasil ela ganhou o código ABNT NBR ISO 20121:2012 - Sistemas de gestão para a sustentabilidade de eventos-.Segundo o site da ABNT, http://www.abntcatalogo.com.br/norma.aspx?ID=91542, essa norma entrou em vigor desde 25 de Agosto de 2012, exatamente um mês após a sua publicação. Ela trata de: Sistemas de gestão para sustentabilidade de eventos — Requisitos com orientações de uso.

E continua em vigor. Ressalta a ABNT que “Esta Norma especifica os requisitos de um sistema de gestão para sustentabilidade de eventos para qualquer tipo de evento ou atividades relacionadas a eventos, bem como fornece orientações sobre a conformidade com esses requisitos”.

Segundo Daniel de Freitas Costa, Coordenador nacional da comissão ABNT NBR ISO 20121:2012, diretor de Sustentabilidade do Instituto Brasileiro de Eventos (Ibev), representante brasileiro na ISO 20121, membro da Comissão de Meio Ambiente e Sustentabilidade da OAB/SP, “Existe uma grande diferença entre falar de sustentabilidade e exercitá-la. E somos todos responsáveis por levar uma maior consciência da sustentabilidade ao mercado de eventos. Pequenas ações dão origem a grandes resultados”. E arremata dizendo “O trabalho realizado pelo grupo brasileiro na elaboração da ISO insere o Brasil no cenário mundial e demonstra a nossa preocupação com o tema sustentabilidade. Mas, na verdade, o trabalho começa agora. Somos todos responsáveis por levar uma maior consciência da sustentabilidade ao mercado de eventos.”


O GRI EOSS:  Global Reporting Initiative – Event Organizers Sector Supplement

A Global Reporting Initiative, ‘GRI’, promove a elaboração de relatórios de sustentabilidade que pode ser adotada por todas as organizações. A GRI produz a mais abrangente Estrutura para Relatórios de Sustentabilidade do mundo proporcionando maior transparência organizacional. Esta Estrutura, incluindo as Diretrizes para a Elaboração de Relatórios, estabelece os princípios e indicadores que as organizações podem usar para medir e comunicar seu desempenho econômico, ambiental e social. A GRI está comprometida a melhorar e aumentar continuamente o uso de suas Diretrizes, que estão disponíveis gratuitamente para o público.

Ela, que é uma Organização Não-Governamental composta por uma rede multistakeholders, foi fundada em 1997 pela CERES e pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (UNEP). Em 2002, a GRI mudou-se para Amsterdã onde atualmente está sediada a Secretaria. Ela conta também com os representantes regionais, os Pontos Focais (Focal Points) nos países: Austrália, Brasil, China, Índia e Estados Unidos e uma rede mundial de 30.000 pessoas.

O EOSS oferece orientação sobre como reportar o desempenho em sustentabilidade do seu evento. Essa metodologia foi utilizada nos Jogos Olímpicos de Londres, analisando e escolhendo patrocinadores, exposição e organizadores do evento.

 Suas orientações podem ajudar desde a fase de licitação e planejamento inicial de um evento, por meio de execução do evento e pós evento ou legado .  O Comitê Organizador da Olimpíada de Londres deu uma visão de como eles incorporaram os critérios do EOSS no primeiro de seus três relatórios GRI - a fase de planejamento.

Segundo Phil Cumming, Gerente de Sustentabilidade Empresarial em Londres 2012, "A sustentabilidade é uma consideração integral no planejamento e entrega dos Jogos de Londres 2012. Nossa visão foi a de usar o poder dos Jogos para inspirar mudanças duradouras.  Quisemos estabelecer novos padrões e criar um legado de conhecimento poderoso para gerenciamento de eventos mais sustentáveis.  Eventos que seguirem o proposto pelos organizadores do Suplemento Setorial da GRI irão desempenhar um papel fundamental para alcançar estes objetivos.” São orientações que podem ser utilizadas para todos os tipos de pequenos e grandes eventos, desde eventos como Copa do Mundo, Olimpíadas, torneios de rúgbi, golfe, exposições culturais e de arte, festivais de Rock (como o Rock in Rio e o Lollapalooza), estreias de filmes, conferências e reuniões as mais diversas.

 Os interessados que adotem o EOSS devem analisar participantes, força de trabalho, patrocinadores e mídia.  Duas categorias setoriais específicas (Sourcing & Legado) e 13 novos indicadores essenciais foram desenvolvidos para o EOSS.

Dimensão Ambiental e aspectos da sustentabilidade nos eventos

A dimensão ambiental relacionada aos aspectos da sustentabilidade, impactos da organização sobre a vida e não-vida, sistemas naturais, incluindo ecossistemas, terra, ar e água são levados em consideração na realização de eventos. Indicadores Ambientais para cobrir desempenhos relacionados aos insumos (por exemplo, material, energia, água) e saídas (por exemplo, emissões, efluentes, resíduos) também foram criados e são amplamente utilizados. Além disso, eles cobrem o desempenho relacionado à biodiversidade, cumprimento da legislação ambiental, e outras relevantes informações, tais como despesas com o ambiente e os impactos de eventos, produtos e serviços.

A análise da dimensão ambiental e sustentabilidade leva em consideração sete quesitos essenciais:

1- Forma de Gestão

Os organizadores devem fornecer um relato conciso sobre a gestão, com referência aos seguintes aspectos ambientais:

• Materiais;

• Energia;

• Água;

• Biodiversidade; 

• Emissões, Efluentes e Resíduos;

• Produtos e Serviços;

• Compliance;

• Transportes.

2- Metas e Desempenho

Deve ser ponderada a relação entre os objetivos gerais da organização e o adequado desempenho ambiental. Para mensurar essa relação podem ser usados indicadores específicos.

3- Política da Organização

Os compromissos de desempenho ambiental da Política devem estar acessíveis a todas as partes interessadas. Veículos de domínio público como a internet podem ser boas opções de meios de publicidade.

4- Responsabilidade Organizacional

Exige engajamento de níveis hierarquicos a partir dos operacionais e não só de governança como em outros casos.

5- Formação e Sensibilização

Procedimentos relacionados com a forma e sensibilização das partes interessadas durante o ciclo de vida do evento em relação aos aspectos ambientais são muito importantes e devem ser estruturados e levados a efeito com cuidado e muito zelo. É nessa fase que acontece a conscientização ambiental do participante, o que tornará o evento sustentável, ou não.

6- Monitoramento e Acompanhamento

Procedimentos relacionados ao monitoramento corretivo e ações preventivas, incluindo as relacionadas com a cadeia de suprimentos tornam-se vitais ao sucesso de qualquer evento. Nesse ponto, a lista de certificações para o ambiente relacionadas ao desempenho ou outras abordagens de auditoria e verificação, devem fazer parte da comunicação para a organização ou para a sua diretoria de abastecimento.

7- Informações Contextuais

Essas são informações relevantes necessárias para compreender o desempenho organizacional, tais como:

• Principais sucessos e falhas;

• Os principais riscos e oportunidades ambientais e organizacionais;

• Principais mudanças em relação ao planejado no relatório, de forma a melhorar o desempenho dos sistemas e das estruturas;

• Estratégias e procedimentos para a implementação das políticas que levem ao atingimento de metas.

Em dois anos acontecem dois grandes eventos no Brasil:

- A Copa do Mundo;

- As Olimpíadas (em 2016);

Partindo-se do fato que a proteção ambiental no Brasil foi instituída em 1981 pela Lei nº 6.938, podemos torcer para que essa nova norma sirva de cerne para uma legislação mais ampla, tal qual o Edital 41 do Bacen serviu para a Edição da Resolução 4327, que exige maiores cuidados das instituições financeiras na concessão de crédito.

Alguém já ouviu falar em algum pedido de certificação de ISO 20121:2012 para qualquer um desses eventos? Ou para uma cidade sede qualquer? Seria uma Certificação necessária, que atestaria o bom planejamento, a boa confecção dos equipamentos - instalados ou construídos, bem como o bom treinamento do pessoal a trabalhar, o bom suprimento em todos os níveis (desde a assistência médica, até a comida e bebida a ser colocada à disposição dos presentes), os bons serviços oferecidos, o transporte condizente com o porte do evento, a segurança e o respeito à biodiversidade, dentre outros itens.

Declarou Rosana Zan, em entrevista ao site www.patrociniodeventos.com.br:

 “Seguindo outras normas da ISO, essa certificação – ISO 20121 – não será obrigatória. Mas com certeza ela virá através da exigência das parcerias, inclusive internacionais, e poderá ser atestada da seguinte forma: a empresa se autodeclarar em conformidade com a norma, afirmando que seus eventos são sustentáveis, prática que já acontece em alguns casos, mas que agora necessitará de uma auditoria externa independente para validação, mediante processo de análise de seus processos”.

Mas nada se ouve, se lê ou se vê sobre a Copa e a ISO 20121:2012. Será que mais uma vez, por desrespeito às normas vigentes, vamos passar pela República das Bananas? No Brasil, só o Rock in Rio possui essa certificação! Onde está o Comitê Organizador da Copa que não atentou para a certificação do evento? Não atentou para detalhes que ferem o disposto na norma e tampouco na grandiosidade de sua abrangência? Não me admiraria se constatasse que a grande maioria deles estivessem nas telas das televisões, fazendo comerciais e aproveitando a oportunidade para rechear seus seus bolsos polpudos. Enquanto isso, o belo espetáculo continua...o espetáculo que remete à Roma: pão e circo (futebol) e o povo sempre calado... bem calado...



Informações sobre o texto

Como citar este texto (NBR 6023:2002 ABNT)

CREDIDIO, Guilherme Simões. Irresponsabilidade ambiental mata a Copa! Onde está a ISO 20121:2012?. Revista Jus Navigandi, ISSN 1518-4862, Teresina, ano 19, n. 4010, 24 jun. 2014. Disponível em: <https://jus.com.br/artigos/29403>. Acesso em: 17 dez. 2018.

Comentários

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    Felipe Medeiros

    Prezados,

    Sou do Serviço de Limpeza Urbana - SLU do Distrito Federal - DF, e estou realizando uma pesquisa referente ao número de lixeiras disponibilizadas por número de pessoa.

    Essa pesquisa está sendo realizada para que possamos estimar a quantidade de lixeira para o carnaval da cidade.

    Por ventura vocês possuem algum calculo referente ao assunto?

    Atenciosamente,

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    roberto gomes corrêa

    Os governantes (federal , estadual e municipal), desde que fomos indicados para sediar a Copa, nunca estiveram preocupados com "ISOS", muito menos nossos legisladores que como num tsunami aprovaram a malfada "lei geral da copa". Quem parece que ficou desatento , porém mesmo que quisessem nada poderiam fazer, é a "turma" do ecologicamente correto. A mídia queria mais é ter espaços e mais espaços comerciais em função do torneio e desta forma jamais colocariam como pauta o assunto espinhoso como certificações, etc. MANDOU, MANDA E CONTINUARÁ MANDANDO, aquilo chamado DINHEIRO, não importando o que ou de que forma seja obtido. Diante de tudo isso então a "maldita Copa", além de não deixar os propalados legados positivos(portos, aeroportos,estradas, metros, trens, onibus, etc.,etc.etc), deixará sim legados negativos e que também não serão divulgados.

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    Alaís da Rocha

    O articulista teve a perspicácia necessária para ver aquilo que os organizadores não viram, ou seja, a falta da ISO 20121 num megaevento como a Copa. Lendo no artigo que o Rock in Rio é o único que tem essa certificação, me pergunto: será que só produtores musicais são responsáveis? Ou os esportivos se acham deuses e acham que podem passar por cima de tudo e de todos? Lamentável que a Copa nos deixe por legado a remediação do impacto socioambiental causado!

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    Teresa Sauerbronn

    Ninguém atentou para a falta de Certificação da Copa. Ou seja: passaremos como rolo compressor por cima das cidades que sediarem os jogos, deixando para trás a reparação dos impactos ambientais causados. Não é, como disse o autor, muita irresponsabilidade? À ele, meus cumprimentos por ter enxergado algo tão sério que ninguém mais enxergou.

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