O Direito não pode ser virado pelo avesso por um presidente da Câmara dos Deputados procurado pela Justiça.

O poder quase sempre corrompe a ética do parlamentar. Após enriquecer de maneira ilícita ele comete outros delitos para acobertar os crimes financeiros que cometeu. Quando é associada à política, a religião pode corromper a racionalidade. Soterrado pelo seu passado desonesto, o político apela para o misticismo e passa a acreditar que foi eleito por Deus estando desobrigado de responder pelos seus atos à Justiça dos homens.

A prevalência do poder sobre a ética e a supremacia da religião sobre a racionalidade podem conduzir o Estado à sua perdição mediante a corrupção do Direito. Foi exatamente isto que ocorreu quando Eduardo Cunha tentou trocar o Impedimento de Dilma Rousseff pela rejeição da cassação de seu mandato.

Tudo o que o presidente da Câmara dos Deputados fez ao admitir o início do processo de Impedimento sem motivo plausível (como, aliás, já disse a OAB) foi nos colocar diante de uma escolha que será fatal para os interesses dele. Não é difícil escolher entre a preservação do Estado de Direito e a instauração de uma tirania comandada por parlamentares criminosos liderados por um bandido procurado pela Justiça (caso de Eduardo Cunha). Agora todos os cidadãos responsáveis serão obrigados a defender o mandato presidencial, pois o presidente da Câmara dos Deputados - um criminoso que quer se salvar sacrificando o regime constitucional e o Estado – conseguiu identificar o mandato de Dilma Rousseff com o regime democrático conquistado com muita luta nos anos 1980.   

Só existe um regime político no qual a vontade criminosa é capaz de se transformar em regra da atividade pública: a ditadura. Eduardo Cunha não tem o controle das Forças Armadas, nem treinou e armou forças paramilitares capazes de derrotar a espinha dorsal do Estado brasileiro. Portanto, ao sucumbir ao delírio místico/parlamentar/religioso, ao tentar o impossível (afastar Dilma Rousseff do cargo) para impedir o possível (sua própria queda em razão dos crimes que cometeu) ele apenas cometeu suicídio.

A tragédia encenada por Eduardo Cunha para por fim à própria carreira política – que começou pelas mãos de FHC, sempre ele – não encontra paradigma na história parlamentar brasileira. Por isto recorro a Pirandello para descrever a cena política da inevitável queda do presidente da Câmara dos Deputados:

“Reli, com expressão feroz e o coração em tumulto, não sei mais quantas vezes, aquelas poucas linhas. No primeiro impulso, todas as minhas energias vitais insurgiram-se violentamente para protestar, como se a notícia, tão irritante em seu impassível laconismo, pudesse ser verdadeira também para mim. Mas, senão para mim, ela era verdadeira para os outros; e a certeza que tinham esses outros, desde a véspera, de minha morte, constituía, contra mim, uma violência intolerável, permanente, esmagadora... Olhei novamente para meus companheiros de viagem e, quase como se eles também, ali, debaixo dos meus olhos, repousassem, naquela certeza, tive a tentação de sacudi-los de suas incômodas e penosas posições, sacudi-los, acordá-los, a fim de gritar-lhes que não era verdade.” (O Falecido Mattia Pascal, Luigi Pirandello, editor Victor Civita, São Paulo, 1978, p. 98)

Após perder o cargo de presidente da Câmara dos Deputados, ser cassado, condenado e preso, Eduardo Cunha terá muito tempo para meditar sobre estas palavras de Pirandello. Todavia, o mais provável é que a loucura dele não encontre cura na prisão. Abandonado por Deus e privado da fé, Cunha ficará apenas mais louco do que já demonstrou ser. 



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