Com o transcurso da pandemia, que já dura há aproximadamente 1 ano, alguns crimes do Código Penal, que antes pareciam hipóteses distantes, tornaram-se habituais.

Dos delitos contra a saúde pública, destacamos o crime previsto no artigo 268 do Código Penal.

 Art. 268 – Infringir determinação do poder público, destinada a impedir introdução ou propagação de doença contagiosa:

Pena – detenção, de um mês a um ano, e multa.

Trata-se de norma penal em branco, cujo complemento vem de outra lei, medidas provisórias, decretos, portarias ou até de resoluções. Portanto, a violação à determinação do poder público para limitar o número de pessoas em ambientes ou estabelecer regras e limites para aglomerações, visando a impedir a propagação de doença extremamente grave e altamente contagiosa, como a COVID, configura crime previsto no art. 268 do Código Penal, acima mencionado.

Já a norma do artigo 131 do Código Penal prevê o crime de perigo de contágio de moléstia grave, a saber:

Art. 131 – Praticar, com o fim de transmitir a outrem moléstia grave de que está contaminado, ato capaz de produzir o contágio:

Pena – reclusão, de um a quatro anos, e multa.

Trata-se de crime de perigo, não sendo necessário o contágio de terceiro, bastando apenas a exposição para a consumação do delito.

O agente deve ter conhecimento de que possui a doença e ter a vontade de transmiti-la, ou seja, o autor precisa ter o dolo, visto que não existe essa conduta na modalidade culposa.

Exemplificando, a pessoa que sabe ser portadora de moléstia grave contagiosa, ao sair do isolamento determinado pelas autoridades sanitárias ou judiciais com a intenção de propagá-la, poderá ser enquadrada no crime de perigo de contágio de moléstia grave, cuja pena máxima em abstrato é de 4 anos de reclusão.

Ainda sobre os crimes de periclitação da vida e da saúde, encontramos o crime previsto no artigo 132 do Código Penal, qual seja, perigo para a vida ou saúde de outrem:

Art. 132 – Expor a vida ou a saúde de outrem a perigo direto e iminente:

Pena – detenção, de três meses a um ano, se o fato não constitui crime mais grave.

O disposto no artigo 132 do Código Penal tem a finalidade de proteger sobre qualquer situação de perigo iminente a vida ou a saúde.

O perigo causado pela conduta do agente deve expor pessoa certa e determinada, o que não impede que mais de uma pessoa seja exposta ao perigo. Desse modo, não se faz necessário o dano, sendo suficiente a exposição a perigo. 

Ademais, o agente deve querer, conscientemente, o estado de perigo ou, no mínimo, admiti-lo, assumindo o risco de produzi-lo. Destarte, é cabível a modalidade de dolo eventual.

Importante salientar considerações sobre o dolo eventual, no qual o agente assume o risco de produzir o resultado, já que não cabe nas demais figuras típicas acima mencionadas.

Sendo assim, a pessoa que desobedece à ordem de quarentena, ainda que sem intenção de infecção de terceiro, mas assume o risco de fazê-lo, incorre no crime de perigo para a vida ou saúde de outrem.

Porém, se resultar o dano, o agente, a depender do caso concreto, poderá responder por lesão corporal culposa ou homicídio culposo, pois a eventual morte da vítima, embora precedida de enfermidade decorrente da conduta do agente, não tem a finalidade de qualificar, como resultado mais grave, a conduta antecedente do agente. Por isso, não se aplica a figura do crime preterdoloso (Art. 129, §3 do CP).

Ante o exposto, o Direito Penal, como ultima ratio ou última trincheira, possui o objetivo de penalizar a pessoa que, assumindo ou não o risco de prejudicar outrem, tem a finalidade de contribuir com a propagação de doença considerada grave e contagiosa como a COVID, podendo colocar em risco um grande número de pessoas, como na atual pandemia.


Autor

  • Paulo César da Silva Melo

    Paulo César da Silva Melo, alagoano de Arapiraca, casado, pai de quatro filhas, servidor público estadual desde 2000, Membro da Polícia Judiciária de Alagoas desde 2002, bacharel em Direito pela UNEAL, aprovado no XIV Exame Nacional da OAB em 2014, pós-graduado em Direito Penal e Processo Penal aplicados, Escritor de artigos jurídicos publicados em revistas renomadas, Chefe de Cartório de Delegacias desde 2010, com curso de operações especiais promovido pela APOCAL e dezenas de cursos de capacitação e especialização promovidos pelo Ministério da Justiça na área de Segurança Pública, estudioso das ciências criminais e professor de direito em cursos preparatórios para concursos públicos.

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Como citar este texto (NBR 6023:2018 ABNT)

MELO, Paulo César da Silva. Crimes relacionados à pandemia. Revista Jus Navigandi, ISSN 1518-4862, Teresina, ano 26, n. 6408, 16 jan. 2021. Disponível em: https://jus.com.br/artigos/87974. Acesso em: 2 dez. 2021.

Comentários

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    Yago Vencerlencio de Oliveira

    Olá, Paulo. Estou com uma dúvida desde o começo de pequenos decretos até os mais agressivos contra a liberdade do individuo. Porque só ouvimos falar de erros do cidadão, mas quero saber um pouco mais sobre os erros da administração pública.
    A minha maior dúvida é; como responsabilizar o estado e/ou representates imediatos da administração pública em relação a esses decretos? Da classe média-média para baixo, é obrigada a pegar transporte público todos os dias de segunda a sexta, e isso não mudou durante a pandemia. Não é dificil colher assinaturas e fotos... esses trabalhadores passam por isso e chegam em casa para ver uma mídia colocando culpa em bares/restaurantes que tem 4 pessoas em uma mesa. O maior vetor de proliferação do virus não é um bar ou restaurante, é o transporte público que carrega milhares e milhares de pessoas pela cidade inteira todos os dias com cidadão amontoado um em cima do outro.