CONCLUSÃO

Diante da presente pesquisa foi possível demonstrar a direta relação entre a questão da homofobia e da efeminofobia com o processo milenar de misoginia. Ademais, ainda foi possível observar a difícil construção da identidade masculina. Ao considerar que a construção social do masculino é um aspecto desenvolvido na ordem simbólica e cultural, a ser considerada uma característica não inata – uma vez que remete à própria aprendizagem do comportamento, ou seja, ser masculino –, em que os homens devem provar sê-lo, fica demonstrada que a estruturação dela também é bastante custosa aqueles que precisam demonstrá-la e de igual modo frágil.

Ao passo que as mulheres estão submissas ao grivo misógino dos valores sociais, os quais, diga-se, continuam a se perpetuar por milênios, conforme demonstra Badinter (1992), não há o que se falar em provar sua identidade feminina, já os homens devem demonstrar e provar que são masculinos, fortes e viris. As características femininas, ao avesso, embora não se limitem em si mesmas, demonstram, de certa forma, estarem vinculadas com a fragilidade, ainda que no âmbito simbólico.

Em outras palavras, às mulheres bastam seguir os valores impostos, não havendo um propósito ou necessidade hercúlea de se provar aos demais que se é feminina. Como aponta Eisler, verbos como provar, demonstrar, transparecer, estão muito mais ligado à masculinidade e à virilidade[27]. Assim, mesmo se uma mulher não tiver todos os atributos que socialmente ou culturalmente se esperam, talvez isto às torne ainda mais aceitas ao grupo, pois representa um distanciamento do feminino, ainda que permaneçam mulheres.

O homem, por outro lado, precisa constantemente manter sua reputação de virilidade, dominação e força, que são características imprescindíveis à masculinidade. Já a mulher, antagonicamente, se opera ao oposto do que se entende por masculino, sua mera presença constitui uma ameaça terrível, que poderia abalar seus delicados baldrames. Ora, já que a homossexualidade se apresenta como equiparação ao feminino, ideologicamente uma negação do masculino, por meio da oposição à heterossexualidade e da heteronormatividade, então, não é arriscado afirmar que a sua presença na sociedade inibe e fere a construção e a manutenção da identidade masculina dos demais indivíduos.

Da mesma maneira, essa necessidade de autoafirmação masculina, quiçá, é devida a uma reminiscência demasiado tardia, um ranço incrustado no inconsciente coletivo humano, da época em que as mulheres eram corolárias supremas do poder. O falocentrismo, então, deve ser interpretado como uma forma legítima de gerência do poder, no patético temor de ter seu trono dominado novamente por elas – trono este apossado desde os neolíticos. Isso prova que o pensamento misógino, propagado de forma tão milenar, ainda está fortemente enraizado. A homofobia é, pois, prova cabal da dinâmica falocêntrica que ainda reina na sociedade hodierna, a qual ainda permanece disseminando a opressão e a violência, por meio da hegemonia masculina.

Destarte, em relação especificamente à efeminofobia, seja ela pratica por grupos heterossexuais, bissexuais ou mesmo homossexuais, com a devida vênia, representa apenas a criação de mais um termo para classificar a sexualidade – o que demonstra um retrocesso científico. Onde os sexólogos querem chegar com mais uma subespécie? Como diria Foucault, será uma reminiscência dos entomologizadores do Século XIX[28]? Quanto mais se classifica, mais se cria a análise extremamente específica do problema e, ao olhá-lo de forma míope, se perde a integralidade. Ora, o que os cientistas precisam buscar são as mais profundas causas dos problemas – como se tentou fazer na presente pesquisa –, e não analisá-los como mais uma categoria, de forma superficial e insular.

O fenômeno da efeminofobia, do qual os estudiosos da sexualidade se orgulham em ter doravante identificado e catalogado, remonta literalmente a Idade da Pedra! – como será melhor analisado na sequência. Como ficou comprovado aqui, a efeminofobia, assim como a homofobia, são apenas ramificações do pensamento misógino, ou seja, a aversão ao feminino e a todo e qualquer aspecto ou característica que venha da mulher. Assim, embora paradoxal, em uma perspectiva psicanalítica, o homofóbico, em última análise, odeia a mulher, e não o homossexual, pois seu ódio vem daquilo que é feminino[29]. Tal fato se torna muito claro na cultura romana, como citado, onde pouco importava seu parceiro, desde que sua posição fosse ativa no sexo, como um macho alfa dominante.

Em epítome, sua causa é o falocentrismo! Explica-se: o culto ao falo, que, como mencionado, se iniciou no período Neolítico e acompanha o homem desde então. É sobre o ódio ao feminino, o qual reflete também no ódio aos homossexuais, aos travestis, aos transformistas, aos transexuais e todo e qualquer símbolo que esteja ligado ao feminino e à mulher, violência esta originada pelo falocentrismo que o presente artigo tentou tratar. Dessarte, como tema específico desta pesquisa, foi com base no fenômeno falocêntrico que se retomou a mais primitiva origem antropológica para tentar reconstruir o cenário necessário e desenvolver a origem da efeminofobia, que para a presente pesquisa, ressalta-se, apenas remete a uma espécie do gênero homofóbico. Sendo que, em todos os casos, seu real escopo se mantêm o mesmo, qual seja: o ódio contra o feminino.


REFERÊNCIAS

ADAID, Felipe. Genealogia da Homofobia: Violência e Falocentrismo. Trabalho de Conclusão de Curso. PUC Campinas, Campinas, 2013.

ADAID, Felipe. Homofobia e Misoginia na pré-história. Revista Ártemis, v. 21, n. 1, p. 27, 2016.

ADAID, Felipe. Brasil e as veredas da homofobia: genealogia da violência e falocentrismo. Revista Brasileira de Sexualidade Humana, v. 26, n 1, p. 41, 2016.

ADAID, Felipe. Homossexualidade e homofobia: conceitos ou preconceitos? Revista Brasileira de Sexualidade Humana, v. 25, p. 101, 2016.

BADINTER, Elizabeth. XY: Sobre a Identidade Masculina. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1992.

EISLER, Riane. O prazer sagrado: sexo, mito e política do corpo. Rio de Janeiro: Rocco, 1996.

FOUCAULT, Michel. História da Sexualidade I: A vontade de saber. São Paulo: Graal, 2006.

LINS, Regina Navarro. O livro do Amor I: Pré-história à Renascença. Rio de Janeiro: Bestseller, 2013.

LINS, Regina Navarro. O livro do Amor II: Iluminismo à atualidade. Rio de Janeiro: Bestseller, 2013.

PROUT, Ryan. Fear and Gendering: Pedophobia, Effeminophobia and Hypermasculine desire in the work of Juan Goytisolo. EUA: Latin American and Iberian literature, 2010.

RICHARDS, Jeffrey. Sexo, desvio e danação: as minorias na Idade Média. Rio de Janeiro: Zahar, 1993.

RICHARDS, Jeffrey. Sexo, desvio e danação: as minorias na Idade Média. Rio de Janeiro: Zahar, 1993.

TREVISAN, João Silvério. Devassos no paraíso: A homossexualidade no Brasil, da colônia à atualidade. Rio de Janeiro: Record, 2000.


Notas

[1]Cf. PROUT, Ryan. Fear and Gendering: Pedophobia, Effeminophobia and Hypermasculine desire in the work of Juan Goytisolo. EUA: Latin American and Iberian literature, 2010.

[2]SEDGWICK, Eve Kosofsky. How to bring your kids up gay. Duke Univerty Press. Disponível em <http://faculty.law.miami.edu/mcoombs/documents/sedgwick_GayKids.pdf>. Acessado em 01 jan 2017.

[3]Sobre a questão da misoginia, não obsta ressaltar a obra de Adaid, a qual aborda de forma lúcida o fenômeno da misoginia na Idade Antiga: “O que deve ficar claro a respeito da sexualidade entre os gregos e romanos é a profunda aversão ao feminino. É evidente que sempre houve casais heterossexuais apaixonados, a mitologia guarda inúmeros exemplos de envolvimentos assim, talvez o mais ilustre deles seja a disputa pela mão de Helena, que desembocou na Guerra de Tróia. Contudo,  quase todos os relatos, mesmo os mais apaixonados, demonstram a fragilidade e a submissão da mulher em relação ao seu marido. Mesmo nesse exemplo, Helena é tratada como um objeto a ser disputado. Assim, o pensamento misógino é influenciado pelo culto ao Falo. Ele, ao contrário do que parece, não representa simplesmente a negação e dominação da mulher, mas de todo aspecto feminino. Seja como for, as práticas homossexuais na antiguidade não excluem, em absoluto, a possibilidade de serem consideradas precursoras do pensamento homofóbico. Ora, mas como uma relação homossexual pode ser considerada anti-homossexual? Por mais contraditório que possa parecer, o comportamento homossexual floresceu entre os clássicos, como uma vertente do pensamento misógino. Ou seja, os antigos desprezavam tanto a figura feminina que passaram a se inclinar mais para a figura masculina. Entretanto, essa inclinação era meramente uma forma de autoafirmação. Esse patológico culto fálico em detrimento da submissão feminina encontrará seu apogeu no período medieval, quando as mulheres de fato sentirão seu lúgubre fardo”. Cf. ADAID, Felipe. Genealogia da Homofobia: Violência e Falocentrismo. Trabalho de Conclusão de Curso. PUC Campinas, Campinas, 2013, p. 70.

[4] Cf. ADAID, Felipe. Genealogia da Homofobia: Violência e Falocentrismo. Trabalho de Conclusão de Curso. PUC Campinas, Campinas, 2013.

[5] Cf. ADAID, Felipe. Genealogia da Homofobia: Violência e Falocentrismo. Trabalho de Conclusão de Curso. PUC Campinas, Campinas, 2013.

[6] Cf. ADAID, Felipe. Homossexualidade e homofobia: conceitos ou preconceitos? Revista Brasileira de Sexualidade Humana, v. 25, p. 101, 2016.

[7]Cf. ADAID, Felipe. Genealogia da Homofobia: Violência e Falocentrismo. Trabalho de Conclusão de Curso. PUC Campinas, Campinas, 2013.

[8]Cf. PROUT, Ryan. Fear and Gendering: Pedophobia, Effeminophobia and Hypermasculine desire in the work of Juan Goytisolo. EUA: Latin American and Iberian literature, 2010.

[9]Na mesma perspectiva comenta Sedgwick, em seu artigo How to bring your kids up gay: Indeed, the official gay movement has never been quick to attend to issues concerning effeminate boys. A more understandable reason than effeminophobia, however, is the conceptual need of the gay movement to interrupt a long tradition of viewing gender and sexuality as continuous and collapsible categories – a tradition of assuming that anyone, male or female, who desires a man must by definition be feminine; and that anyone, male or female, who desires a woman must by the same token be masculine. Cf. SEDGWICK, Eve Kosofsky. How to bring your kids up gay. Duke Univerty Press. Disponível em <http://faculty.law.miami.edu/mcoombs/documents/sedgwick_GayKids.pdf>. Acessado em 01 jan 2017.

[10]Cf. ADAID, Felipe. Genealogia da Homofobia: Violência e Falocentrismo. Trabalho de Conclusão de Curso. PUC Campinas, Campinas, 2013.

[11]Cf. ADAID, Felipe. Genealogia da Homofobia: Violência e Falocentrismo. Trabalho de Conclusão de Curso. PUC Campinas, Campinas, 2013.

[12]Cf. ADAID, Felipe. Genealogia da Homofobia: Violência e Falocentrismo. Trabalho de Conclusão de Curso. PUC Campinas, Campinas, 2013, p. 250.

[13]“Assim, as deusas da Pré-história perderam o seu espaço e registro, quando o homem descobriu o seu papel sexual. Após a instalação do patriarcado, há certa de cinco mil anos, a mulher adquiriu status de mercadoria: podia ser comprada, vendida ou trocada. Passou a ser considera inferior ao homem e, por conseguinte, subordinada a sua dominação”. Cf. EISLER, Riane. O prazer sagrado: sexo, mito e política do corpo. Rio de Janeiro: Rocco, 1996, p. 40.

[14]Cf. ADAID, Felipe. Genealogia da Homofobia: Violência e Falocentrismo. Trabalho de Conclusão de Curso. PUC Campinas, Campinas, 2013.

[15]Cf. ADAID, Felipe. Homofobia e Misoginia na pré-história. Revista Ártemis, v. 21, n. 1, p. 27, 2016.

[16]Cf. LINS, Regina Navarro. O livro do Amor I: Pré-história à Renascença. Rio de Janeiro: Bestseller, 2013, p. 24.

[17]Cf. ADAID, Felipe. Genealogia da Homofobia: Violência e Falocentrismo. Trabalho de Conclusão de Curso. PUC Campinas, Campinas, 2013.

[18]Cf. RICHARDS, Jeffrey. Sexo, desvio e danação: as minorias na Idade Média. Rio de Janeiro: Zahar, 1993.

[19]Cf. TREVISAN, João Silvério. Devassos no paraíso: A homossexualidade no Brasil, da colônia à atualidade. Rio de Janeiro: Record, 2000.

[20]ADAID, Felipe. Brasil e as veredas da homofobia: genealogia da violência e falocentrismo. Revista Brasileira de Sexualidade Humana, v. 26, n 1, p. 41, 2016.

[21]Cf. FOUCAULT, Michel. História da Sexualidade I: A vontade de saber. São Paulo: Graal, 2006, p. 30.

[22]Mas a pílula não favoreceu somente às mulheres. O fato de o sexo se dissociar da procriação fez com que as práticas heterossexuais e homossexuais se aproximassem. A homossexualidade, representante máxima dessa dissociação, onde é possível atingir um alto nível de prazer sem a menor possibilidade de procriação, é beneficiada socialmente. Cf. LINS, Regina Navarro. O livro do Amor II: Iluminismo à atualidade. Rio de Janeiro: Bestseller, 2013, p. 270.

[23]Cf. LINS, Regina Navarro. O livro do Amor II: Iluminismo à atualidade. Rio de Janeiro: Bestseller, 2013, p. 292.

[24]Cf. ADAID, Felipe. Genealogia da Homofobia: Violência e Falocentrismo. Trabalho de Conclusão de Curso. PUC Campinas, Campinas, 2013.

[25]“Dever, provar, provocações, estas palavras dizem que há uma tarefa real a cumprir para tornar-se homem. A virilidade não é dada de saída. Deve ser construída, fabricada. O homem é, portanto, uma espécie de artefato e, como tal, corre sempre o risco de apresentar defeito. A masculinidade não é uma essência, mas uma ideologia que tende a justificar a dominação masculine.” Cf. BADINTER, Elizabeth. XY: Sobre a Identidade Masculina. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1992, p. 4.

[26]Cf. ADAID, Felipe. Genealogia da Homofobia: Violência e Falocentrismo. Trabalho de Conclusão de Curso. PUC Campinas, Campinas, 2013, p. 301.

[27]EISLER, Riane. O prazer sagrado: sexo, mito e política do corpo. Rio de Janeiro: Rocco, 1996.

[28] “Como são espécies todos esses pequenos perversos que os psiquiatras do século XIX entomologizaram atribuindo-lhes estranhos nomes de batismo: há os exibicionistas de Laségue, os fetichistas de Binet, os zoófilos e zooerastas de Kraff-Ebing, os automonossexualistas de Rohleder; haverá os mixoscopófilos, os ginecomastos, os presbiófilos, os invertidos sexoestéticos e as mulheres disparêunicas. Esses belos nomes de heresias fazem pensar em uma natureza o suficiente relapsa para escapar à lei, mas autoconsciente o bastante para ainda continuar a produzir espécies, mesmo lá onde não existe mais ordem”. Cf. FOUCAULT, Michel. História da Sexualidade I: A vontade de saber. São Paulo: Graal, 2006, p. 51.

[29] Cf. ADAID, Felipe. Genealogia da Homofobia: Violência e Falocentrismo. Editora Prismas: Curitiba, 2018.


Autor

  • Felipe Adaid

    Advogado e consultor jurídico em Direito Penal e Direito Penal Empresarial no Said & Said Advogados Associados. Foi Diretor de Gerenciamento Habitacional da Secretaria de Desenvolvimento Social e Habitação e Primeiro Secretário do Conselho de Habitação do Município da Valinhos, SP. Mestre em Educação e Políticas Públicas pela PUC Campinas. Ingressou em primeiro lugar no mestrado e foi contemplado com a bolsa CAPES durante os dois anos de curso. Cursou disciplinas de pós-graduação na Unicamp. É especializando em Direito Penal, Processo Penal e Criminologia, pela PUC Campinas. Na graduação, tem 5 semestres de créditos no cursos de Psicologia, também pela PUC Campinas. Durante a graduação de Direito também foi bolsista de iniciação científica, CNPq, e foi monitor em diversas disciplinas, tanto no curso de Direito como no curso de Psicologia. Foi membro do grupo de pesquisa Direito à Educação do Programa de Pós-Graduação da PUC Campinas. É corretor de revistas científicas pedagógicas e jurídicas. É autor de 11 livros, sendo 3 ainda em fase de pré-lançamento, e organizador de outros 10 livros, além da autoria de 44 capítulos de livros publicados no Brasil, no Chile e em Portugal. É autor de mais de 100 publicações científicas, entre artigos científicos, resenhas e anais, nacionais e internacionais. Ademais, também escreve periodicamente ensaios e artigos para jornais e blogs. No âmbito acadêmico, suas principais bases teóricas são: Foucault, Lacan, Freud, Dewey e Nietzsche. Por fim, tem interesse sobre os seguintes temas: Direito, Direito Penal, Criminologia, Psicologia, Psicologia Forense, Psicanálise, Sexualidade, Educação e Filosofia.

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Como citar este texto (NBR 6023:2002 ABNT)

ADAID, Felipe. Uma crítica ao conceito de efeminofobia. Revista Jus Navigandi, ISSN 1518-4862, Teresina, ano 24, n. 5719, 27 fev. 2019. Disponível em: <https://jus.com.br/artigos/71392>. Acesso em: 20 maio 2019.

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