5. Conclusão

Procuramos construir aqui um caminho razoável através da obra de Pierre Bourdieu, que nos permitisse inserir o sistema de cotas da universidade brasileira nos mecanismos de solução para o problema da reprodução observada, no nosso entendimento, em sua grande produção científica, notadamente na sua sociologia da educação.

Vimos que sua preocupação epistemológica inicial, centrada na superação da dicotomia objetividade x subjetividade, como a mediação do habitus, pôde ser entendida como uma indicação explícita de não aceitar o determinismo dos que indevidamente lhe acusaram de reprodutuvista, e que inadvertidamente tomaram sua obra como desmobilizadora de uma ação da educação para a transformação.

Podemos observar que suas categorias devem ser tomadas em interdependência, assim é que ao conceito de campo se segue o conceito dos variados tipos de capital e que a disputa interessada no âmbito da produção cultual é logicamente transportada para a disputa no campo científico. Esse, por sua vez, pode incutir nos novatos uma boa vontade cultural para aceitação dos discursos legitimados ou enveredar para uma subversão das posições dominantes, com ou sem a ajuda de uma ainda não totalmente desenvolvida, pelo menos na sua obra, pedagogia racional.

Vimos que o sistema de cotas para acesso de uma minoria historicamente alijada dos processos de produção cultural, tornada obrigatória nos termos da Lei nº 12.771/2012, tem como um de seus fundamentos filosóficos a promoção da diversidade cultural. Essa promoção da diversidade cultural, aliada uma pedagogia racional, proporcionará um realinhamento das forças que lutam pela hegemonia no campo científico, fato que possibilitará que o sistema de ensino, com sua vocação para reprodução de estruturas desiguais presentes na sociedade, possa, a partir daí, reproduzir uma situação mais igualitária dada a evidencia da transformação do perfil da comunidade universitária, nas atividades do ensino e da pesquisa, em um ambiente multicultural.

O sistema de cotas, desse modo, é um passo importante, mas não único, para permitir ao Estado amparar-se de elementos para fazer agir a profunda reforma no meio intelectual, nivelando a batalha pela hegemonia do campo científico, de uma forma que permita o desaparecimento da desigualdade e da injustiça propiciada pela reprodução de estruturas desiguais.

Aqui lembramos de um fato ocorrido no seminário sobre a obra “O Estado” de Bourdieu, promovido pelo Mestrado Acadêmico da Universidade Estadual do Ceará. Uma professora palestrante relatou que certa vez, na composição de uma banca, um dado professor lhe ponderou que os sociólogos usavam Bourdieu como coentro, que serviria para temperar quase tudo; ela retrucou e lhe disse que bem melhor seria que suas categorias fossem usadas como pimenta. Já que se costuma temperar as teorias sociológicas com as categorias de Bourdieu, melhor seria, para tornar a comparação fiel ao próprio autor, que essa comparação fosse feita com o sal. E por quê? Roberto Desnos, inserido pelas mãos de Bourdieu na sua obra “A Reprodução”, diz que de um ovo branco nasce um ovo branco; milagre da reprodução que se repetirá indefinidamente até que se faça um omelete. Um omelete da produção cultural, diríamos. É essa a omelete que há de ser feita com o ovo do pelicano de Jonathan. O tempero? Basta o sal fornecido por Pierre Bourdieu.


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[1] Em texto publicado no livro Coisas Ditas, sob o título Espaço Social e Poder Simbólico, oriundo de conferência pronunciada na Universidade de San Diego, em março de 1986, Bourdieu esclarece: “Se eu tivesse que caracterizar meu trabalho em duas palavras, ou seja, como se faz muito hoje em dia, se tivesse que lhe aplicar um rótulo, eu falaria de constructivist structuralism ou de structuralist constructivism, (...) de fato, o acaso das traduções faz com que se conheça A reprodução, por exemplo, o que levará, como alguns comentadores não hesitaram em fazer, a me classificar entre os estruturalistas, ao passo que não se conhecem trabalhos bem anteriores” (...). No mesmo texto, ao tratar da oscilação existente na sociologia entre o objetivismo e o subjetivismo: “Se abordei de maneira um pouco pesada essa oposição  - um dos mais funestos pares de conceitos (paired concepts) que, como Richard Bendix e Bennett Berger mostraram, abundam nas ciências sociais -, é porque a intenção mais constante e, a meu ver, mais importante de meu trabalho foi superá-la. Embora com o risco de parecer muito obscuro, poderia resumir em uma frase toda a análise que estou propondo hoje: de um lado, as estruturas objetivas que o sociólogo constrói no momento objetivista, (...); mas, de outro lado, essas representações também devem ser retidas, sobretudo se quisermos explicar as lutas cotidianas, individuais ou coletivas, que visam transformar ou conservar essas estruturas.

[2] Na França dos anos 50 do século passado a filosofia ocupava o mais alto degrau da hierarquia universitária, sendo considerada a disciplina rainha. Sua origem social modesta e provinciana nas lhe oferecia as disposições exigidas para o exercício da disciplina rainha (NOGUEIRA, 2009).

[3]  Em entrevista para a revista FAMECOS, Bourdieu destacou não ter a pretensão da originalidade eterna: “Penso, de fato, que a sociologia é uma ciência cumulativa e nunca tive nenhuma pretensão à originalidade absoluta reivindicada, a meu ver de maneira bastante ingênua, por certos filósofos contemporâneos, principalmente os que são classificados com frequência na categoria dos “pós-modernos” (Revista FAMECOS • Porto Alegre • nº 10 • junho 1999 • semestral).

[4] A pioneira Lei Estadual nº 3.524/2000 determinou a adoção do sistema de cotas nas universidades públicas do Estado do Rio de Janeiro.


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Como citar este texto (NBR 6023:2018 ABNT)

OLIVEIRA, Roberto Carlos Fernandes de. Bourdieu, o sistema de cotas e o omelete de ovo de pelicano. Revista Jus Navigandi, ISSN 1518-4862, Teresina, ano 26, n. 6545, 2 jun. 2021. Disponível em: https://jus.com.br/artigos/90572. Acesso em: 19 jun. 2021.

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