Serão necessárias várias gerações para eliminar nosso ranço histórico de uma ideologia patrimonialista, estamental, escravocrata, clientelista e individualista em nossa sociedade.

Introdução

Lançamos mão do Cinema, mais precisamente do filme Django Livre (EUA, 2012), para abordarmos uma questão delicada que é a da discriminação racial. A propósito, quanto ao valor da metáfora para o Direito, Richard A. Posner afirma que ela “desempenha um papel cognitivo bastante útil, de lançar uma pessoa para fora de seu atual quadro de referências, levando-a a olhar para determinada coisa de uma maneira nova, talvez mais esclarecedora”. [1] Aliás, o mesmo Posner afirma que “por ser matéria, e não método, o direito presta-se a ser estudado por pesquisadores de outras disciplinas...”, [2] como, e.g., a crítica literária que veio dar origem à crítica de cinema — que, aqui, esclareça-se, nos limites dos objetivos deste artigo jurídico não possui pretensões acadêmicas. A propósito, defende Arnaldo Sampaio de Moraes Godoy que:

O cinema lê nossos tempos, essa modernidade, preocupação nascida das sombras do iluminismo, abordada por Nietzsche e Weber. Assim, Hitchcock, Bergman, Kurosawa, Fellini, Almodóvar, Zeffirelli, Fassbinder, Kazan, Tarantino, Pasolini, Resnais, Eisenstein lêem o mundo da justiça [...]. [...] Presta-se o cinema a tudo querer ler e interpretar. [...] O cinema focaliza enredos preocupados com o justo, com a ética, com jurisprudência pretensamente universal. [...] Promove miríade de concepções, criações, variações. Acena com interminável banquete de referências. É inesgotável repertório retórico. [3]


1 Do filme Django Livre

Django Livre se passa em 1858, em plena era da escravidão estadunidense e pouco antes da Guerra de Secessão (1861-1865). Ele trata da história de um escravo, Django Freeman — “the ‘D’ is silent[4], como o herói gosta de frisar, defendendo sua identidade —, que encontra com o caçador de recompensas alemão Dr. King Schultz (Christoph Waltz), que o liberta e lhe ensina a sua “arte”, sem se importar com a cor da pele do nosso herói. Ao revés, ele se compadece da sorte de Django (Jamie Foxx) e faz de tudo para uni-lo a sua esposa, a escrava Broomhilda (Kerry Washington), homônima da personagem da lenda de O anel dos Nibelungos, de enorme prestígio na Alemanha, o que reforça a simpatia de Schultz pelo casal.

O filme, como de soem ser todos os de Quentin Tarantino, vem gerando muita polêmica, desta vez não apenas pela sua estética da violência, mas igualmente por uma questão muito mais sensível, qual seja a da escravidão dos negros nos EUA. Aliás, o consagrado diretor Spike Lee, militante do movimento negro, não viu e não gostou de Django Livre:

“Eu não posso falar sobre isso [o filme] porque eu não vou vê-lo. Tudo o que eu vou dizer é que é desrespeitoso aos meus antepassados. Isso sou eu. Eu não estou falando em nome de ninguém”, afirmou Lee. O cineasta também escreveu em seu Twitter sobre o filme. “A escravidão nos Estados Unidos não foi um western spaghetti de Sergio Leone. Foi um holocausto. Meus ancestrais foram escravos, roubados da África. Eu os honrarei”. [5]

 Assistindo ao filme, entendi o motivo...

Em sua odisseia para tentar recuperar a amada, Django é obrigado a endurecer o coração. Aliás, como disse Friedrich Nietzsche: “O que digladia com monstros deve cuidar para que, na luta, não se transforme também em monstro. Quando tu olhas, durante muito tempo, para um abismo, o abismo também olha para dentro de ti”. [6]  Vale dizer, Django atua como “traidor” de sua gente para tentar ludibriar o repugnante senhor de escravos Calvin Candie (Leonardo DiCaprio), que comprou Broomhilda e promove lutas de escravos em sua propriedade (numa alusão aos sangrentos certames de MMA do presente).

Aliás, Calvin conta com o maligno conselheiro Stephen — soberbamente interpretado pelo corajoso Samuel L. Jackson —, que apesar de ser um escravo negro, é capaz de qualquer vilania para manter sua posição privilegiada junto ao seu senhor.

Não fora isso o bastante, pour épater les bourgeois, a palavra “nigger”, expressão considerada altamente ofensiva pelos afrodescendentes para se referir a um negro, especialmente quando dita por brancos, é utilizada em profusão no filme. Trata-se de fonema diretamente associado ao período da escravidão, tão pesado que na imprensa quando necessária a referência é substituída por “n-word”.

Por outro lado, defende Richard A. Posner: “Se, contudo, os brancos têm de adquirir uma perspectiva estereoscópica birracial para lidar eficazmente com os problemas raciais da sociedade, o mesmo devem fazer os negros”. [7] Vale dizer, os afrodescendentes posto que devam lutar pela valorização de sua etnia, não possuem o monopólio do tema da discriminação contra os negros, ao arrepio do princípio da isonomia e da liberdade de expressão. (Art. 5º, caput e inc. IX da Constituição Federal de 1988.).      

Ressalte-se que, em seu conjunto, ainda que desprezando a “cartilha do politicamente correto”, comme d’habitude, Quentin Tarantino é autor de um filme francamente favorável ao movimento de valorização dos afrodescendentes, porquanto — como se não bastasse o fato de o herói vingador de Django Livre ser um negro — deixa claro que o sistema da escravidão estadunidense foi absolutamente abominável, só podendo ser equiparado ao Holocausto perpetrado contra o povo judeu.

A propósito, é sintomático que Tarantino tenha realizado um filme cujo pano de fundo é a escravidão logo após haver lançado Bastardos Inglórios (EUA, 2009), que tratava da questão do nazismo. Aliás, o racismo é um tema recorrente nos seus filmes. O-ren Ishii (Lucy Liu) — a chefe da Yakuza (máfia japonesa) — em Kill Bill: Vol. I (EUA, 2003) era miscigenada, de origem nipo-americana e chinesa, por exemplo, o que a obriga se impor em um ambiente francamente desfavorável, permeado de racismo e machismo.

Isso evidentemente tem explicações na própria vida pessoal de Tarantino, de origem italiana e indígena da Nação Cherokee. Em suma, não se pode, sic et simpliciter, acusá-lo de racismo sem um conhecimento mais aprofundado de sua obra e biografia. Aliás, Django Livre não é o seu primeiro filme em que o personagem principal é uma pessoa negra, em Jackie Brown (EUA, 1997) esta é representada pela atriz afromericana Pam Grier.

A propósito, Tarantino — através do repulsivo Calvin Candie — mais uma vez provoca a audiência ao questionar o porquê de, mesmo estando em vantagem numérica muito superior, os escravos não se revoltarem e matarem o seu senhor.

Por sinal, isso tudo nos lembra as dificuldades enfrentadas por Hannah Arendt em sua obra Eichmann em Jerusalém. A filósofa e cientista política de origem judaica foi duramente combatida pelo fato de haver tocado na ferida da colaboração dos Conselhos dos Judeus (“Judenräte”) com o regime nazista, bem como na questão da suposta submissão dos que se deixaram abater nas câmaras de gás. Depois de críticas ferozes, ela foi obrigada a esclarecer que a “opção” que restava aos prisioneiros brutalmente fragilizados pelo nazismo era a morte rápida por asfixia ou a morte lenta mediante tortura, o que justifica a sua aparente resignação, em condições nas quais a livre manifestação da vontade, tout court, não existia. [8],[9]

Aliás, no sistema da escravidão a repressão das fugas ou revoltas não era muito diferente. Escravos fujões ou rebeldes sofriam terríveis punições. Eram caçados como animais, obrigados a usar grilhões, marcados com ferro em brasa, sofriam torturas, eram mutilados e expostos à execração pública.

Por outro lado, o filme Django Livre — vencedor do Globo de Ouro de 2013 pelo melhor roteiro original e candidato ao Oscar em cinco categorias, incluindo Melhor Filme — nos servirá de mote para abordar a questão da discriminação contra os afrodescendentes.


2 Discriminação “racial”. 

Muito embora a genética tenha derrubado os conceitos de raça ou etnia — daí o porquê de haver sido grafada acima a expressão racial entre aspas —, como veremos adiante, na falta de expressões mais claras, somos obrigados a continuar usando-as para mais fácil compreensão do tópico em comento. A ciência moderna comprovou que não se justifica a divisão da humanidade em grupos raciais. Há percentualmente mais diferenças entre duas pessoas de mesma cor do que entre os representantes das chamadas etnias, especialmente na África, onde nasceu a “Eva Mitocondrial”, ou seja, o homo sapiens mais antigo, surgido há cerca de 200 mil anos. Por outras palavras, existe, em verdade, uma só raça: a raça humana. [10]

As diferenças somáticas de cor da pele, tipo de cabelo, conformação do crânio etc, não representam superioridade de uma “raça” em relação à outra — daí porque risível a tentativa do aludido senhor de escravos Calvin Candie de demonstrar a presença “gene da submissão” dos negros com base na conformação de seu crânio.

 Na realidade, isso serve apenas de pretexto ideológico para a intolerância e à dominação de uma elite socioeconômica sobre uma determinada minoria, isto é, grupo de indivíduos com características comuns mais vulnerável ao preconceito do grupo dominante.

O preconceito racial se configura na discriminação de todos os elementos integrantes de um grupo étnico distinto. De acordo com a Psicologia a expressão racismo significa “... uma atitude que engloba duas características: (1) preconceito a favor ou contra um grupo de pessoas relacionadas por uma hereditariedade comum; (2) discriminação — comportamento tendencioso a favor ou contra membros do grupo”. [11] A partir dos três anos de idade — conforme Katz — já é possível observar claras atitudes racistas. Uma cultura de discriminação racial é aquela na qual a criança observa o comportamento dos seus pais, pares e outros, sempre a reforçar o preconceito, através do modelo e da aprovação.

Assim, os estereótipos tendem a se autoperpetuar. As pessoas buscam se recordar daqueles exemplos que se encaixam em seus estereótipos e negar os que com eles conflitam. Fazem generalizações para abarcar todo grupo, baseados na atitude negativa de apenas uma parte deles. O racista age de maneira a induzir o indivíduo discriminado a atuar conforme a visão preconcebida daquele. [12] Por seu turno, a competição e a frustração — tão comuns no ambiente de trabalho — aumentam a tensão racial. A agressão e a amargura de logo se manifestam contra o grupo discriminado. [13]

2.1 Discriminação contra os negros

Aproveitamos a oportunidade gerada pela controvérsia em torno de Django Livre para a abordarmos o problema da discriminação racial no Brasil, inclusive pela semelhança do problema da escravidão havida igualmente nos EUA. Na ausência de vocábulo melhor, utilizaremos o adjetivo negro ou preto para designar os brasileiros descendentes de escravos trazidos da África. [14] A importância histórica deste grupo para o nosso país e a impagável dívida social que temos para com eles justifica nossa decisão.

2.2 Origem do preconceito contra negros e pardos no Brasil

2.2.1 Escravidão

A população reduzida de Portugal e o desinteresse dos trabalhadores livres portugueses em se fixar numa terra distante e inóspita — a não ser que isso lhe proporcionasse enriquecimento rápido — favoreceu a introdução da escravidão no Brasil (1530-1888). O regime escravista em nada colaborou para uma visão positiva da atividade laboral, muito pelo contrário, reforçou-se não só o preconceito quanto ao trabalho em si, mas também forjou estereótipos no que tange aos indígenas (considerados preguiçosos) [15] e aos afrodescendentes — tidos por viciados e depravados.

No primeiro século do período da Colonização portuguesa no Brasil, tentou-se a escravidão dos índios para a formação da massa de mão-de-obra necessária à cultura extrativista e à monocultura em latifúndios destinada à exportação. A sua escravização foi mal sucedida, pois, eles já se encontravam na própria terra, acostumados à liberdade. As constantes fugas e revoltas indígenas fizeram com que os colonizadores optassem pela importação de escravos da África.

Embora os africanos fossem mais dóceis e tecnicamente mais evoluídos que os indígenas — hauçás e malês, e.g., eram alfabetizados em árabe por força de sua origem islâmica (aliás, quando questionado sobre a grafia do seu nome, Django soletra “D-J-A-N-G-O” e explica “the ‘D’ is silent”, deixando claro o fato de saber ler) —, isso não os impedia de executar o trabalho forçado com pouca produtividade, em defesa de sua sobrevivência face à brutal opressão do feitor. [16] “As rebeliões, fugas, os quilombos, os trabalhos mal executados ou não cumpridos, eram uma forma de os negros manifestarem seu protesto.” [17]

Por outro lado, a fim de justificar o crime da escravatura, toda uma ideologia foi formada para qualificar o negro como animal irracional, destituído de alma humana. Indivíduo bruto, preguiçoso e perigoso. Por sua vez, Hannah Arendt, falando da escravidão na África do Sul, defende que

[...] o homem negro teimosamente insistia em conservar suas características humanas, só restando ao homem branco reexaminar a sua própria humanidade e concluir que, nesse caso, ele era mais do que humano, isto é, escolhido por Deus para ser o deus do homem negro”, concluindo que o racismo “... está sempre intimamente ligado ao desprezo pelo trabalho”. Afinal, “... tudo perde seu sentido e atração numa sociedade em que ninguém quer realizar nada e todos são deuses”.  [18]

De acordo com Gilberto Freyre [19] e Sérgio Buarque de Holanda [20], os escravos eram as mãos e os pés do senhor de engenho, porque sem eles no Brasil não seria possível fazer, conservar e aumentar a fazenda nem ter engenho corrente. Além disso, foram de grande importância na formação dos valores da sociedade brasileira, através das amas-de-leite, que se dedicavam às crianças brancas. Estas eram criadas no meio dos escravos e animais domésticos, induzidas à bestialidade e ao sadismo. Quando cresciam tornavam-se prepotentes e gostavam de mandar. Exigiam tratamento de “senhor” por todos, inclusive da mulher e, raramente, fazendo uso de “por favor” e “obrigado” no cumprimento de suas ordens.

O engenho se constituía em um organismo autônomo e que, na medida do possível, se bastava a si mesmo. Ali dentro o proprietário era uma espécie de imperador absoluto. Nos municípios dominavam os coronéis, proprietários de terra, comerciantes, bacharéis e até industriais. Eles mantiveram o título de coronel mesmo com a extinção da Guarda Nacional em 1918. Assim, nossa sociedade ficou marcada pelo patriarcalismo, como organização compacta, única e intransferível, na qual prevalecem os laços afetivos. [21]

2.2.1.1 Lei Áurea

A libertação dos escravos se deu após um longo processo. Primeiro, por pressão dos ingleses — que queriam a formação de um mercado consumidor para os seus produtos industrializados —, veio a proibição do tráfico negreiro, em 1850. [22] Isso, contudo, não impedia o comércio ilegal de escravos, o negócio mais lucrativo da época. Ao longo de mais de três centúrias foram importados mais de quatro milhões de africanos... [23] Número mais do que dez vezes superior ao dos EUA e equivalente a um terço de todos os escravos trazidos para as Américas. [24]

Sabe-se que os negros eram trazidos à força do continente africano, sendo que a maioria perdia a sua vida já nesse processo de captura e transporte — nas condições mais indignas possíveis. Aqui eram sujeitos a jornadas de trabalho extenuantes, com péssima alimentação, bem assim a castigos físicos e morais. [25] A expectativa de vida útil de um trabalhador escravo, do fim do século XIX, era de 12 a 15 anos. [26], [27]

Depois, em 1871, veio a Lei do Ventre Livre, com esta os filhos dos escravos eram livres: conta-se que ao nascerem eram simplesmente abandonados por ordem do proprietário da mãe do recém-nascido.

A 28 de setembro de 1885, foi sancionada a Lei dos Sexagenários, segundo a qual os escravos de mais sessenta anos estavam livres. Ocorre que eles eram simplesmente expulsos das fazendas sem nenhuma indenização ou amparo do governo. Finalmente, após intensa luta abolicionista — cujos motivos econômicos estavam também vinculados à lavoura cafeeira, que necessitava de imigrantes europeus, melhor capacitados para nela trabalhar — foi promulga a Lei Áurea, em 13 de maio de 1888.

2.2.1.1.1 Marginalização dos afro-brasileiros

A libertação dos escravos se deu a contragosto dos senhores de engenho. Os negros foram libertados sem receber nenhuma indenização. Fomos o último país a fazê-lo... Eles não eram alfabetizados nem tinham a cultura do imigrante europeu de trabalhar duro, poupar para comprar a própria terra e nela prosperar. Assim, o sistema escravista nos deixou como herança “... a marca de todas as desvantagens do trabalho escravo: falta de iniciativa, preguiça, desleixo com as ferramentas e ineficiência geral”, como escreveu Hannah Arendt a respeito da escravidão na África do Sul.  [28]

Os antigos escravos queriam apenas gozar a recém adquirida liberdade e encontrar um pedaço de terra no qual pudessem desenvolver uma agricultura de subsistência, à semelhança dos velhos quilombolas. [29] Os mais conformados conseguiam manter-se nas propriedades dos antigos senhores como trabalhadores assalariados, os demais eram expulsos; e vagavam de fazenda em fazenda em busca de emprego, caíam na mendicância ou marginalidade, migrando para as cidades para formar uma massa de favelados, situação em que permanecem até hoje boa parte dos seus descendentes.

2.3 Pardos.  Mito da democracia racial

Ao contrário das colônias de povoamento do Canadá, do norte dos EUA e da Austrália, v.g., para onde os colonizadores levavam suas esposas européias e formavam famílias brancas — segregando os negros e condenando o casamento inter-racial —, aqui tivemos uma história de colonização de exploração. Noutros termos, o homem português vinha ao Brasil sozinho para enriquecer e depois voltar a Portugal. A maneira por ele encontrada de povoar a terra era mantendo relações sexuais com índias e negras. Assim, a miscigenação se disseminou em nosso país.

De acordo com geneticista mineiro Sérgio Danilo Pena, responsável pela pesquisa que traçou o retrato dos 500 anos de transformações, que resultaram na composição genética brasileiro atual: “‘É praticamente impossível encontrar um brasileiro genuinamente branco ou negro’. Sua pesquisa demonstra que a cor de pele não reflete toda a história contida no DNA”. [30]

Voltando à nossa análise histórica e sociológica, enquanto que nos EUA havia um política violenta de segregacionismo ou mesmo de apartheid, onde as famílias dos escravos eram separadas — como acontece com o casal Django e Broomhilda —, no Brasil, ao revés, tivemos uma política de caldeamento. Esta vem a ser uma ideologia de miscigenação do negro com o branco, tendo como propósito que o primeiro assimile os valores do segundo.

Dessarte, é muito comum vermos um casal brasileiro “inter-racial”, no qual o homem é mais escuro que a mulher. Ao negro que enriquece, casar com uma loura representa um “troféu” pelo sucesso social obtido, além de um clareamento de sua descendência, que assim, imagina-se, poderá encontrar menores dificuldades de prosperar. Dessa forma, criamos uma sociedade dégradé, na qual aos mais claros estão reservadas as melhores oportunidades e aos mais escuros o preconceito. Nada disso é dito expressamente, mas faz parte do inconsciente coletivo brasileiro.

Assim, evitou-se a formação de uma consciência negra e a luta pelos seus direitos civis. O negro assumiu para si que os valores dos brancos eram os melhores e os seus os piores. Passaram a copiar a cultura européia, num processo de branqueamento. Esse mimetismo cultural desarticulou a organização do negro em torno dos seus valores e problemas, impedindo a revolta contra a injustiça racial. Isso foi o oposto do movimento que aconteceu nos Estados Unidos da América e que só agora começa a surgir no Brasil.

O mito da democracia racial, por seu turno, retirou dos brancos a obrigação de reduzir os entraves para a ascensão social dos afro-descendentes. Sob outro enfoque, em nossa pátria, pela miscigenação havida, vemos que o preconceito é muito mais dirigido contra o pobre do que propriamente contra o negro. Este, quando ascende socialmente, passa a se comportar como o branco e a receber tratamento parecido ao reservado ao último; e chega até mesmo a discriminar os negros pobres... [31] Aliás, como o fazia o bajulador Stephen de Django Livre. Por sinal, o Censo 2010 detectou que:

No que se refere à cor ou raça, a população residente do País estava composta por 48,2% (92,5 milhões) de pessoas que se declararam brancas; 6,9% (13,3 milhões), pretas; 44,2% (84,7 milhões), pardas; e 0,7% (1,3 milhão), amarelas e indígenas. [...] Regionalmente, as características conhecidas se mantiveram: na Região Sul, as pessoas brancas correspondiam a 78,5% da população residente e, nas Regiões Norte e Nordeste, as pessoas pardas atingiram 71,2% e 62,7% das respectivas populações residentes. [32]

Por outro lado, os rendimentos médios mensais dos brancos (R$ 1.538) se aproximam do dobro do valor relativo aos grupos de pretos (R$ 834) e pardos (R$ 845). Entre as capitais, destacam-se: Salvador, com brancos ganhando 3,2 vezes mais do que pretos, Recife (3,0) e Belo Horizonte (2,9). Entre brancos e pardos, São Paulo (2,7) aparece no topo da lista, seguida por Porto Alegre (2,3). Em terceiro lugar estão empatadas Salvador, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, onde brancos têm um rendimento 2,3 vezes maior do que pardos. [33]

Saliente-se que em Salvador, a “Roma Negra”, cidade que abriga a maior população de pretos fora da África, as discrepâncias entre estes e os brancos são maiores ainda. A herança histórica da escravidão, ocorrida em toda a sua plenitude na Cidade do São Salvador da Bahia de Todos os Santos (capital e sede da administração colonial do Brasil até 1763) se revela no fato de que nela temos o segundo pior índice de desigualdade social do planeta! Se Salvador fosse um país, estaria atrás apenas da Namíbia, na África, em termos de má distribuição de renda. [34]

Aliás, no mercado de trabalho, existem áreas fechadas ao trabalhador negro, posto que ele seja competente. Basta reparar na cor dos empregados nos shoppings, restaurantes, hotéis de luxo e companhias aéreas. O contingente de analfabetos negros é o dobro do de brancos.

Por outro lado, na realidade, o que temos no Brasil não é uma democracia racial, mas uma tolerância racial. Democracia implica igualdade de oportunidades, o que não existe nem mesmo em relação aos brancos... Passados pouco mais de cem anos da abolição oficial da escravatura, a maioria dos afro-brasileiros ainda sobrevive em condições pouco melhores ou mesmo análogas à escravidão. Ainda hoje, estima-se, segundo dados da OIT, que existam cerca de 25 mil escravos no Brasil! Essa situação é tão grave que provocou a promulgação da lei infra. [35], [36]

Os afro-brasileiros não têm acesso universal à educação e à saúde de qualidade. [37], [38]A maior parte trabalha apenas para garantir a subsistência. Mesmo aqueles que alcançaram — à custa de um tremendo esforço pessoal e dos seus pais — um padrão de vida de classe média enfrentam o preconceito no momento de disputar os melhores postos de trabalho.

Por sua vez, os Estados Unidos da América também têm uma história de escravidão e até hoje sofrem por causa disso. A segregação dos negros, a luta pelos direitos civis e as altas taxas de violência são em boa parte reflexos da odiosa escravatura. No excelente documentário Tiros em Columbine (“Bowling for Columbine”, EUA, 2002) vemos como o pânico em relação aos afro-americanos e latinos é massivamente incentivado pelos noticiários policiais da TV.

Por trás dessa ideologia do medo do diferente estão poderosos interesses econômicos. Como o incentivo à indústria de armas, de equipamentos de proteção residencial e de construção de condomínios nos subúrbios. No vizinho Canadá, onde o pluralismo e o bem-estar social fazem parte da cultura, o número de homicídios com arma de fogo é muitíssimo menor. Lá as pessoas dormem com a porta da frente das casas destrancada... Por sua vez, na película do Spike Lee, citado em linhas transatas, “A Hora do Show” (Bamboozled, EUA, 2000) mostra-se como, sem que nos demos conta, os filmes e os programas de humor, subliminarmente, reforçam o nefando preconceito. [39] Faz parte da ideologia de dominação da elite branca sobre os negros tachá-los de preguiçosos, lentos, estúpidos, sujos, feios, ladrões, malcheirosos, alcoólatras ou maconheiros. [40]

Em nossa pátria, até bem pouco tempo atrás os negros não apareciam nas propagandas comerciais. Nas telenovelas só recebiam papéis de escravos, empregados domésticos ou marginais... Felizmente — posto que muito ainda seja preciso fazer — a situação melhorou. A visibilidade dos talentosos atores e modelos afro-brasileiros tem massageado a auto-estima destes, a ponto de haver crescido o número de brasileiros que espontaneamente se declaram negros nas pesquisas do IBGE. [41]

A propósito, dentre os grandes homens afro-brasileiros destacamos nomes como o de Machado de Assis — filho de um pintor de paredes mulato e neto de escravos — foi o primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras e é considerado um dos maiores nomes da literatura mundial. Todavia, só recentemente veio à lume a sua atuação na administração pública, para ampliar a aplicação da Lei do Ventre Livre e beneficiar os escravos. [42]

Não poderíamos, também, deixar de citar o saudoso geógrafo Milton Santos, vencedor do Prêmio Internacional de Geografia Vautrin Lud, em 1993, o equivalente ao Nobel na área da Geografia — o único agraciado fora do universo anglo-saxão. Professor emérito da Universidade de São Paulo, nascido em Brotas de Macaúbas, no interior da Bahia. Os pais, professores primários, o alfabetizaram em casa. Aos 8 anos, já havia terminado o curso primário. Neto de escravos por parte de pai, foi incentivado a estudar sempre e muito. Dos 8 aos 10 anos, aprendeu francês e boas maneiras, sempre em casa, enquanto aguardava o tempo para ingressar no ginasial. Já em Salvador, custeava suas aulas no colégio lecionando Geografia, na própria escola, aos alunos do ensino médio. [43]

No entanto, são nos espaços sociais para os quais não são necessários investimentos paternos de longo prazo em educação de qualidade, como nas artes e no esporte, que o gênio afro-descendente se revela em toda a sua pujança. Assim atestam Grande Otelo, Pixinguinha, Pelé e Garrincha no Brasil, Muhammad Ali, Louis Armstrong, Billie Holiday e Jimi Hendrix nos EUA, para ficarmos apenas nos casos mais notórios.

Já na cúpula do poder público não podemos deixar de citar o presidente do STF Joaquim Barbosa, no Brasil, e o presidente dos EUA Barack Obama.

É preciso, por conseguinte, que os brasileiros tomem consciência da injustiça social que atinge de forma mais perversa os afro-descendentes. A escravidão e as sucessivas formas de exploração e discriminação do negro ainda não são uma página virada na nossa história. É um fato presente nos noticiários do país, que ainda nos cobre de vergonha. [44]



Informações sobre o texto

Como citar este texto (NBR 6023:2002 ABNT)

PRATA, Marcelo. “Django Livre” de Tarantino e a discriminação racial. Revista Jus Navigandi, ISSN 1518-4862, Teresina, ano 18, n. 3506, 5 fev. 2013. Disponível em: <https://jus.com.br/artigos/23644>. Acesso em: 22 jun. 2018.

Comentários

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    Adolfo Nascimento

    Caramba, doutor! Se eu não tivesse assistido ao filme, teria ido com um certo receio ao cinema. Toda essa história de discriminação racial deve ser entendida e combatida mas... afirmar que uma obra de arte é criminosa? O próprio Spike Lee é preconceituoso e não sabe: "Aliás, o consagrado diretor Spike Lee, militante do movimento negro, não viu e não gostou de Django Livre". Quer dizer, ao mesmo tempo em que combate o preconceito afirma que evita aquilo que não conhece. Sinais dos tempos. Só falta um iminente deputado federal, ex delegado, assistir a esse filme e pedir à Justiça que bloqueie tal exibição... tudo pelo bem dos tupiniquins.

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